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domingo, 30 de outubro de 2022

Halloween, por Carmo Bairrada

 


O HALLOWEEN tem uma longa História praticada há mais de 3 mil anos. Apareceu com os Celtas, que eram um povo Politeísta (acreditavam em vários Deuses relacionados com animais e forças da natureza).

O festival de Samhain era celebrado pelos Celtas durante 3 dias e tinha início em 31 de Outubro. Além de comemorarem o final do Verão, comemoravam também a passagem do Ano Celta, que tinha início em 1 de Novembro. Havia a crença de que, naquele dia, os mortos se erguiam e se instalavam nas entranhas dos vivos, com o intuito de se defenderem dos maus espíritos.

Já mais tarde, na Idade Média, a Igreja iniciou a condenação de tal evento, passando a chamar-se “o dia das Bruxas”. Os curandeiros da época eram tidos como Bruxos, o que ia contra os Dogmas da Igreja. Foi assim que eles foram todos condenados à fogueira.

Por causa do Halloween, a Igreja passou a comemorar o Dia de Todos os Santos a 1 de Novembro, em vez de ser a 13 de Maio. Assim, afastaria os hábitos pagãos, mas isso não aconteceu.

Através da Imigração, o Halloween continuou a passar de geração em geração. Hoje, é uma festa com sólidas raízes especialmente nos EUA, Reino Unido e Canadá, onde ganham especial relevância. Além destes 3 países existem outros que festejam esta data. É uma alegria ver as crianças, contentes, vestidas com as suas fantasias estranhas e a Abóbora iluminada parecendo uma cara, a baterem de porta em porta, gritando a célebre frase: “doce ou travessura” / Trick or treat”.

Azeitão, 29-10-2022

Carmo Bairrada

segunda-feira, 20 de junho de 2022

sobre "O Conto da Ilha Desconhecida", José Saramago

 

“DÁ-ME UM BARCO”

SOBRE "O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA", JOSÉ SARAMAGO

 

É um louco… sorriu o rei!

- Dá-me um barco!

O homem insistiu…

Começava o rei a ficar farto.

- Para que queres um barco?

- Vou procurar a ilha Desconhecida

Lá nos confins do mar!

- Mas já todas têm vida!

- Vou saber quando a encontrar,

Dá-me um barco.

Conto-te quando voltar!

- E essa ilha vai ser para mim?

- Se já tens as conhecidas

No teu mapa sem fim,

Para que queres as desconhecidas

Se nem acreditas em mim?

Falou então o rei, cansado, farto:

Vai ao cais falar com o Capitão,

Para que te dê um barco…

E assinou a ordem num cartão!

O barco não valia nada!

A tripulação era a mulher até ali calada.

Mas ambos a acharam muito bela

- “Como é linda a nossa caravela!"

Não saíram do atracadouro

Presos ao seu sonho de aventura,

O sonho que era o seu tesouro

Diziam os demais que era loucura!

E de corpos unidos continuaram a sonhar.

Faltava um último passo,

Naquele ínfimo espaço!

Estava o barco por baptizar…

E como se gravassem a própria vida,

Pintaram na proa da “caravela”

ILHA DESCONHECIDA…

E como era bela!

Batiam as ondas nos costados

Do barco que não saiu do cais,

E os corpos unidos enlaçados

Eram tripulação, leme, arrais!

 

Elita Guerreiro 8 /6/2022

Romance da Raposa: percurso de Salta-Pocinhas

 

ROMANCE DA RAPOSA

Da Infância, à Adolescência e por fim a fase Adulta  

A Raposa Salta-Pocinhas teve uma infância muito mimada. Sempre teve o que lhe era necessário sem nada fazer para que os pais, já velhos, descansassem. Certo dia, a Mãe entendeu que ela já estava na idade de trabalhar e não ficar à espera de ter tudo de mão beijada e teve uma conversa séria com a filha, em que lhe disse:

Salta-Pocinhas já tens idade de procurar um ofício. Comer e dormir, dormir e comer também eu queria. Olé! Se ainda o não sabes, fica sabendo: Quem não trabuca não manduca”. Estás na idade de te conduzir por tua cabeça.

A Raposa chorou, mas não conseguiu mudar as ideias da mãe. Esta só lhe disse:

“Santa paciência”! Abriu a porta e ela saiu.

Andou 3 dias e 3 noites sem conseguir arranjar de comer e um buraco para dormir; safava-se com uns míseros gafanhotos, que ia encontrando.

Sentia-se cansada e pensou em voltar para casa, mas as últimas palavras, que a mãe lhe dirigira, atormentavam-lhe a cabeça e o espírito.

A Raposa Salta-Pocinhas sabia que estava por conta própria até ser independente e poder ter uma vida sossegada e honesta, de forma a ser respeitada. Chegara à adolescência: emancipou-se,

Romance da Raposa: características de algumas personagens


ROMANCE DA RAPOSA

CARACTERÍSTICAS DE ALGUMAS PERSONAGENS

E SEUS SIGNIFICADOS

 

RAPOSA SALTA-POCINHAS

ARDILOSA (Disfarçada)

ASTUCIOSA (Sagaz)

BRIOSA (Orgulhosa)

EMBUSTEIRA (Mentirosa)

FAGUEIRA (Meiga)

IRRESSOLUTA (Hesitante, Indecisa)

LAMBISQUEIRA (Comilona)

LUZIDIA (De pêlo brilhante)

MANHOSA (Hábil, Maliciosa)

MATREIRA (Esperta, Experiente)

PINTALEGRETA (Alegre, Pimpona, Pedante)

RAPOSETA (Raposa Jovem)

RATONEIRA (Larápia)

SUBTIL (Engenhosa, Delicada, Mansa)

TEMEROSA (Medrosa, Temível)


MÃE DE SALTA-POCINHAS

BOA CONSELHEIRA (Dá bons Conselhos)

BOA EDUCADORA (Dá uma boa educação)

BOA MÃE (Bondosa)

BONDOSA (Benévola)

CAUTELOSA (Prudente, Cuidadosa)

DESCONFIADA (Receosa)

DETERMINADA (Sem Medo, Corajosa, Audaz)

Dra. em LÁBIA (Convicta, Persuasiva)

RESPEITÁVEL (Digna de Respeito)

SÁBIA (Que sabe muito, tem muitos conhecimentos)

terça-feira, 14 de junho de 2022

Dia de Santo António

“ VOLTAM A DESCER A AVENIDA”

 

Lisboa toda se enfeita

Em cada rua já espreita

Um balão, um manjerico!

Já há música no ar

É Lisboa a ensaiar

Uma marcha Popular!

Cada bairro, o mais bonito

Cada rua, um bailarico!

 

Vai de Alfama à Madragoa

Não adormece Lisboa,

Sempre alegre e divertida

Vai desfilar na Avenida!

É noite de alegria

São Vicente, Mouraria

Vêm para a rua cantar

Arcos ao alto a brilhar!

 

Num altar de manjerico,

Santo António e o pequenito

 Presidem aos arraiais!

Qual dos dois se diverte mais?

Jesus sorri num bocejo

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Romance da Raposa (2.a parte, IV)


RESUMO DO 4º. CAPÍTULO – 2ª. PARTE

ROMANCE DA RAPOSA

A Comadre Salta-Pocinhas faltou ao habitual encontro. A Raposa Patifina e as amigas correram tudo à sua procura, não conseguindo encontrá-la.

Foram até à boca da mina e gritaram pelo seu nome, até que ouviram uma voz fraca dizendo que estava com a peste. As raposas fugiram à excepção de Patifina que acabou por ficar e descobrir que a Comadre Salta-Pocinhas estava a banquetear-se com uma boa peça de carne fresca. Ela convida-a. Patifina aceita e sai de barriga cheia, pensando que tinha descoberto o sítio certo, onde a comida não lhe faltaria.

No dia seguinte, apareceu sozinha, sem lhe passar pela cabeça ser recebida pelo Lobo Brutamontes. A Raposa Patifina fugiu, comentando consigo que se juntara a Manha com a Bruteza.

Numa manhã fria e nublada, os Compadres decidiram sair para caçar. De repente, passou por eles uma mulher com um cesto à cabeça e o  Lobo quis atacá-la. Salta-Pocinhas advertiu-o para que não o fizesse, pois ficariam sujeitos a serem vistos pelos homens que limpavam a mata. Pediu para ficar onde estava, que ela continuaria a seguir a mulher. Mais adiante, olhou o céu e viu que a Lua Cheia já estava a descoberto, reflectida na água da poça.

A Comadre chamou o Lobo, contou-lhe que a mulher do cesto escorregara e caira do cesto um queijo que fora parar dentro de água. O Compadre cobiçou o queijo…

A Comadre Salta-Pocinhas explicou-lhe que o que resultaria era que os dois fossem para dentro da poça e bebessem toda a água que pudessem, pois assim o queijo viria ao cimo. 

Com grande impaciência, o Lobo bebeu água até não conseguir andar a direito, enquanto a Comadre só molhou a boca. Como o queijo não viesse à tona, Salta-Pocinhas disse-lhe que esperasse, pois ia à procura de uma enxada para o retirar da água.

Aí chegada, regouga e atrai os homens da mata que ao ouvi-la a perseguem. De repente, deixam de a ver. Voltaram para trás, viram o Lobo Brutamontes sem se mexer e deram-lhe uma sova, seguida de apedrejamento, ficando sem se poder vingar, enquanto a Salta-Pocinhas se deliciava com o almoço dos mateiros.

Quando a Comadre chegou de barriga cheia e viu o estado em que ele estava, encolheu uma pata e coxeou, queixando-se que tinha muitas dores, pedindo ao Compadre que a levasse às cavalitas, pois iam ser mortos pelos mateiros. O Lobo negou-se. A Comadre começou a carpir – se de tal maneira, que ele acabou por consentir. Quando se apanhou às cavalitas, começou a cantar. A sua astúcia, mais uma vez, contribuiu para humilhar o Lobo Brutamontes, que se considerava muito esperto.

 Azeitão, 01-05-2022 

Carmo Bairrada

sábado, 23 de abril de 2022

Dia Mundial do Livro, inédito por Carmo Bairrada

 
DIA MUNDIAL DO LIVRO

 

Livros!

Nas horas de reflexão

Sois vós a minha utopia,

Sois vós a minha distração

Sois vós minha companhia.

 

Livros!

Nenhum foi desilusão

Mas sim uma mais-valia,

Com toda a satisfação

Deixo aqui minha alegria.

 

Livros!

Cada um deixou lembrança

Do tema que abordava,

É uma grande herança

Que não se troca por nada.

 

Livros!

Cada um foi um amigo

Que abriu muito caminho,

Para mim foram abrigo

Como se fosse um ratinho.

 

Livros!

Debaixo daquele Sobreiro

Será que vou conseguir,

Ler todos por inteiro

Muito antes de partir?

 

Azeitão, 23-04-2022

Carmo Bairrada

quarta-feira, 23 de março de 2022

Romance da Raposa (2.a parte, III)

 RESUMO DO CAPÍTULO 3 – 2ª. PARTE

A Comadre Salta-Pocinhas estava trôpega, caduca, magra, com reumático, a pele  a cair.  Mantinha-se lúcida, refinara a astúcia e a manha.

Ela nunca mais caçara, não tinha forças para o fazer. Andava a pedir comida pelos bosques, serras e aldeias.

No Verão, o que lhe valia era a astúcia cada vez mais sabida e apurada. Vivia dos grilos, ralos, rãs, insectos e das maçarocas desfazendo-se em rebuçados de farinha, leite, mel e espigas mais cheias que desfolhava e comia com prazer.

O Inverno era a pior altura do ano para a sua saúde, fazia muito frio. Ficava na toca toda enrolada, a dormir dias inteiros sem nada comer.

O que a fazia estar viva eram os momentos em que adormecia, e pensava o que tinha vivido com o Raposão: a cumplicidade entre ambos, as aventuras das caçadas e o amor que sentiam um pelo outro.

Naquele ano, o Estio foi muito quente: trouxe consigo uma terrível praga de pulgas, os bichos não lhe viam o fim. Resolveram ir até à toca da Raposa conhecida por ”mezinheira e “benzedeira”, esperando que tivesse solução para o problema.

Disse-lhes que ia tentar resolver o assunto, mas que para isso todos teriam de lhe entregar uma peça de caça e cumprir à risca as instruções que lhes fossem dadas.

Todos aceitaram. Mandou cada um para seu lado, em silêncio e não sabendo de nada uns dos outros, todos mergulharam na água da ribeira e as pulgas ficaram no musgo que tinham de colocar na boca.

Mais uma vez, a Raposa conseguiu ter comida para algum tempo sem se preocupar.

Como sempre, valeram-lhe a astúcia e a manha cada vez mais apuradas.

Carmo Bairrada

Azeitão, 05-03-2022

domingo, 6 de março de 2022

Romance da Raposa (2.a parte, II)

 Romance da Raposa (Segunda Parte) – Resumo do capítulo II

O Capítulo II, Segunda Parte do Romance da Raposa, mostra-nos a Salta Pocinhas prosseguindo o seu caminho e lutando com todas as forças pela sobrevivência dela e dos filhos. Irá recorrer, mais uma vez, à matreirice, à astúcia e à criatividade para atingir os seus objetivos. Prisioneira no seu próprio reduto, haveria que engendrar um estratagema capaz de fazer acionar e neutralizar a armadilha que fora colocada à entrada do seu covil. Para conseguir esse desiderato, a raposa voltaria a recorrer à mentira, prometendo o que sabia não poder vir a cumprir. Desta vez calhara ao bufo ser levado ao engano e ao gato bravo pagar com a vida a sua interesseira disponibilidade. Ambos caíram no engodo lançado pela raposa. Esta, mais uma vez, sairia ilesa graças à sua frieza e à sua matreirice.

Conquistada a liberdade, era urgente aconchegar os estômagos há muito vazios. A energia estava nos mínimos, a situação ia-se deteriorando à medida que os dias passavam, as forças davam sinais de colapso. Alguns abelhões, este ou aquele lagarto, tudo caça de pequeno porte era o que ia encontrando e o que ia evitando o pior.  

A certa altura, a raposa avistou uma lebre numa moita próxima. Ciente das suas

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte, VI)

 RESUMO DO 6º. CAPÍTULO – 2ª. PARTE

ROMANCE DA RAPOSA

Mal sabia Salta-Pocinhas que os trapos que roubara viessem a ser o disfarce perfeito, que lhe abriria novos caminhos para as suas velhacarias. Vestia o disfarce: todas as noites sobre os bosques pairava o terror, desde que aparecera esse Monstro vestido à maneira das velhas da aldeia.

O ardil tinha um fim: ficar com a caça fresca que os ratoneiros apanhavam para seu sustento. Eles fugiam, a caça ficava para trás. O Monstro enchia a barriga com enorme prazer e satisfação.

Os bichos, fracos e com fome, reuniram-se pedindo ajuda, para que desaparecesse o dito Monstro. Na assembleia, o Lobo Brutamontes, pediu silêncio, para dar a palavra à Comadre Salta-Pocinhas.  

No seu discurso, disse que iria tentar que o flagelo acabasse, desde que os bichos assinassem um pacto para ela ter direito ao sustento e sobrevivência, pois já era velha e doente: da caça que pilhassem, dar-lhe-iam metade e quem não caçasse, era multado.  

A discussão foi longa e agitada mas, finalmente, aceitaram o pacto.

A Comadre Salta-Pocinhas pediu para estarem atentos a um regougar que faria, caso fosse bem sucedida, e nessa altura poderiam ir ter com ela, junto à ribeira.     

Chegou a casa, pegou num saco onde tinha o que era preciso e correu até ao primeiro palheiro: fez um grande boneco de palha, vestindo-lhe as roupas velhas do seu disfarce.

Quando regougou, apareceram todos e viram um corpo de costas viradas para cima ser arrastado pela água da ribeira. O Monstro desaparecia para sempre. Felizes e contentes, levaram em ombros a Comadre Raposa.

De novo abriu a escola para dar lições aos raposinhos: contava-lhes as suas próprias histórias de vida que eles adoravam ouvir. Foi dessa forma que Salta-Pocinhas lhes ensinou como deviam viver, a partir da altura em que saíssem de casa dos pais, para se fazerem à vida. A Comadre ainda viveu uns bons anos, sentindo-se amada, respeitada e feliz.

Azeitão, 21-05-2022

Carmo Bairrada

sábado, 22 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte, V)

A RAPOSA MATREIRA SEM  EMENDA!

 Será desta vez que o lobo Brutamontes deixa de cair nas manhas da raposa? ”Vale ser burro, mas não tanto!” Que me perdoem os burros, que só o são de nome… Brutamontes não quer mais alianças com Salta- Pocinhas!

 A raposa estava a ficar velhota, mas  manhosa como é e conhecendo-a os animais, como a conhecem, têm dificuldade em acreditar nas melhorias do seu endiabrado carácter! Era com alguma relutância que lhes prestavam ajuda, quando, lamuriando, lhes batia à porta, pedinchando algo com que enganar o estômago! Alguns, mais condoídos, iam caíndo na cantilena da preguiçosa - mor! Mas, tal como se passa connosco, os “Humanos”, salvo devidas excepções, no reino animal ninguém dá nada sem receber algo em troca!

A descarada raposa, em troca de alguma comida, via-se forçada a fazer alguma coisa para merecer alguma comida: enquanto os pais iam caçar, tomava conta dos pequenos raposinhos. E nós, que já lhe conhecemos o jeito de fingida e trapaceira, sabemos como lhe é fácil insinuar-se,quando se trata de passar a perna aos mais crédulos! Ora aí está ela pronta a esquecer o bem que lhe fazem, roubando aos pequenotes o comer que os pais lhe deixavam! Sabia a bandida que, pequenos como eram, não saberiam contar como eram maltratados e não se queixariam! Velha, trôpega e esfomeada, voltava a bater a mata em busca de algum alimento. Mas já não era a mesma “raposeta, jovem, vestida de pêlo sedoso e pata ágil”, que todos tinham conhecido: os animais troçavam da sua decrepitude: “Quem te viu e quem te vê”! Mais uma vez  o reino animal nos surpreende, pela semelhança com este reino ao qual chamamos Humano! As artimanhas desta velha aventureira trazem-nos à memória o procedimento desonesto daqueles que vivem de expedientes, vigarizando e prejudicando os que se julgam espertos, acabando por cair nas suas garras enganosas. Uma grande ideia, mais uma, saiu da cabeça daquela velha matreirona sagaz: abriria uma escola para ensinar pequenos raposinhos! Pensar e pôr em prática foi um ápice!... E foi tão bem aceite e tão festejada esta ideia, que nem baile faltou!... Que cabeças de alho chocho! Então não conheciam  a pretensiosa professora?

 As aulas, muito concorridas, abriram com uma importante lição: óculos na ponta do nariz, começou por ensinar, com ênfase, sobre o verbo roubar. Depois fez desfilar, ante o olhar atento dos alunos, os malefícios dos Invernos, nos quais a caça é difícil, porque os animais se escondem nas tocas, alguns por largo tempo; do Outono, cuja boa disposição é preciso saber aproveitar, porque nuns dias despe todas as árvores do bosque e, noutros, o sol morninho convida a uma saída para caçar: alguns bichos vêm apanhar um pouco de sol e aí zás!... é um vê se te

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte: I)

RESUMO DO 1º CAPÍTULO – 2ª. PARTE –

“O ROMANCE DA RAPOSA”

A Raposa Salta-Pocinhas casou e teve 3 filhos.

Na altura morava na antiga Toca do Texugo, que era pequena, mas para ela servia. Agora, que a família aumentara, mudara-se para uma Toca grande, que mais parecia o labirinto de um castelo. O marido adaptara a nova casa em termos de segurança e habitabilidade.

Na casa de Salta-Pocinhas, a despensa estava agora sempre cheia, pois havia sempre um poleiro a saque e os filhos cresciam gorduchos e bem alimentados. Num dia de caça, o Pai Raposo foi apanhado por uma armadilha, ficou rodeado de cães e acabou por morrer. Salta-Pocinhas conseguiu fugir e isolou-se em casa com os filhos.

A partir dessa altura, ficou transtornada: não saía de casa em busca de alimento, os pequenotes choravam com fome, andando à volta dela de manhã à noite. O medo tinha-se instalado na Mãe Raposa, desculpando-se com o mau tempo, até que uma manhã se encheu de coragem e acabou por sair de casa para procurar alimento.

Correu tudo e acabou por caçar e comer um insecto e um coelho, a quem enganou com a sua astúcia e lábia, lamentando-se depois de ser uma “mãe desnaturada”, pois saciara a fome e não deixara nada para os filhos. Continuou em vão a sua procura, até que, já o sol se tinha posto, decide temerariamente correr para o pátio rico onde o marido perdera a vida e, em frente de um galinheiro bem recheado, fez um assalto repentino e conseguiu sair com caça grossa para levar para casa, apesar da perseguição dos humanos e do cão.

A batalha estava ganha: os seus filhos teriam alimento.

REFLECTINDO:

Salta-Pocinhas foi Mentirosa, Egoísta, Insensata e Lambisqueira, uma Mãe irresponsável, que só pensou nela.

A Consciência salvou-a!

Carmo Bairrada

Azeitão, 10-02-2022 

terça-feira, 23 de março de 2021

Inéditos, por Carmo Bairrada


 ERA UMA VEZ UMA  PRAIA ATLÂNTICA: alguns apontamentos

 O esplendor e o sofrimento que Sophia viveu e viu viver foram transportados para os cadernos que sempre a acompanhavam,  e onde escrevia todas as suas vivências.

Os que lêem Sophia sabem quanto o mar era importante para ela: uma forma de descoberta do “Outro” e, ao mesmo tempo, de “Si” mesma. Como se de um Espelho de Memória se tratasse.  (Este raciocínio era comparado aos Descobrimentos).

 

Quando  olhava para o mar, via:

“ Um duro Atlântico, turvamente verde, com as quatro fileiras de ondas da maré alta sacudindo e desenrolando as crinas de espuma. Ou às horas de maré vasa, o extático mar transparente, detido entre rochedos escuros onde as anémonas eram como pupilas deslumbradas e videntes.”

 

Havia em tudo um conforto rudimentar e fresco, um cheiro a sal e a ervas, as pessoas humildes e honestas que serviam os veraneantes abastados e a memória da injustiça que recaiu sobre uma das personagens mais importantes deste conto, fazendo com que esta viesse a perder a esperança de viver. Estamos a falar de Ana Bote, que dava vida àquele espaço, memória que se misturava com a restante paisagem e que a leva a sobressair neste conto.

O conto é escrito sobre as memórias que Sophia tinha dos verões que passava na praia e sobre a vida, contada, daquela mulher. Sobretudo desses tempos e das recordações que a Autora guardou na sua memória, com saudade, alegria e tristezas. Tal como Ana Bote, o espaço foi ao longo do caminho perdendo as cores e o sentido do chão que pisara vezes sem conta.

Os verões eram passados, enquanto Ana Bote foi desaparecendo. Só restará a praia, o mar… e os aromas, tão longe no tempo que existiram, não foram esquecidos, mas sempre lembrados.

Aquele foi um tempo distante em que o presente impiedoso acabou por dar lugar à injustiça.

Por fim, pode perguntar-se: afinal, qual é a história que Sophia nos conta? É a dos tempos idos do passado e da Memória que tem deles, misturados com um pouco de ficção.

Se não fosse assim, o passado perder-se-ia, como aconteceu com a horta dos cheiros de Ana Bote, que foi destruída porque ela, já sem forças para lutar pelo que era seu por direito, não conseguiu que o tribunal lhe desse razão.

E foi assim que naquele lugar surgiu um imóvel, que veio descaracterizar toda a linha de costa até aos confins do horizonte…

Obra escrita por Sophia de Mello Breyner Andresen para “Parque Expo 98 S.A”

Azeitão, 12-03-2021

Carmo Bairrada

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Inéditos, por Carmo Bairrada

 



O ESCRITOR 

(Recordações de uma Vida)

O meu nome é Afonso, fui filho único. A herança que minha mãe me deixou foi a dos Valores Humanos, como o amor, a amizade, a honestidade, a honradez, ajuda ao próximo, e muito mais, além da educação de rigor, que me foi dada.

Fiquei também com duas casas. A primeira, onde nasci e sempre habitei na cidade; a segunda é a casa de praia, a qual sempre foi chamada de “Cabana”.

 

Depois de completar o ensino secundário, entrei para a Universidade e sai de lá formado em Filosofia. Ainda exerci o ensino na própria Universidade, durante

alguns anos. Agora, que rondo os cinquenta anos, um dia, talvez porque já estava cansado da vida citadina, lembrei-me de fechar à chave a casa da cidade, onde nasci, meti-me no carro com uma mochila e duas malas de viagem, e um precioso achado, de que nunca tivera conhecimento e que era o Diário, que pertenceu a minha mãe. Descobri-o por acaso, quando dava a última volta à casa antes de a fechar. E parti!

 Ao longo do trajecto, ponderei bem naquele meu acto repentino e rumei até à praia onde se situava a “Cabana”.

Respirei fundo e uma lágrima caiu-me pela face naquele lugar, onde fora sempre muito feliz. Não havia mais habitações no areal, a não ser a 1 km de distância a chamada Tasca Velha, e sua habitação, cujos donos eram o Sr. Juca e a esposa. Eu já os conhecia desde pequeno, porque íamos muitas vezes almoçar

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Sobre a "História de um caracol que descobriu a importância da lentidão"

HISTÓRIA DE UM CARACOL QUE DESCOBRIU

A IMPORTÂNCIA DA LENTIDÃO

Mais uma Fábula que Luís Sepúlveda nos deixou editada, antes de partir: infelizmente, já não se encontra entre nós.

 Esta história, como todas as outras, tem como finalidade, os animais que delas fazem parte, ensinarem aos Seres Humanos a forma como estes se devem comportar, ao lidarem com resoluções de problemas no seu quotidiano.

 Hoje, nas sociedades ditas modernas, quase não existe tempo para pensar, comer, tratar da família: é tudo tão vazio, tão oco de sentimentos, que causa um certo receio para quem partirá.

 Os que continuarem a viver neste planeta, com um futuro altamente tecnológico e cada vez mais competitivo, terão de se adaptar.

 Deixo aqui uma pergunta feita por uma criança, que por acaso é o neto do autor, enquanto vivo:

 - “Porque é que o Caracol é tão lento?”

É espantoso! O avô não lhe deu nenhuma resposta naquele momento, e prometeu-lhe que ia tentar saber o porquê e depois o informaria.

Acho que todos já tivemos episódios na nossa vida, e sabemos bem ou não, o que é a “LENTIDÃO”: com certeza que já apanhámos alguns dissabores à conta dela.

Mas aqui, trata-se de uma Fábula em que o autor nos confronta a nós humanos, novamente, com as atitudes dos animais, sejam eles de que espécie forem.

 Como são várias as personagens, escolhi a Tartaruga de nome “MEMÓRIA” e um Caracol ainda jovem, que tinha dormido toda a noite em cima do que ele pensou ser uma bonita pedra.

 Quando o sol raiou é que se conheceram: o Caracol, sempre ao lado da sua companheira, foi contando a sua vida num tom de revolta.

 A Tartaruga, depois de saber toda a história, fez ver ao jovem Caracol descontente e irreverente que ser lento e não ter uma identidade própria, não o devia fazer sentir inferior, mas antes lutar para ser melhor.

 A sua companheira, como ele, era lenta e disse-lhe: -

quarta-feira, 20 de maio de 2020

DIVOC (textos de férias anti-covid)

TÁBEM  e  PODESERQUE   encontram-se de novo…

- Olá, PODESERQUE,  já passei por aqui várias vezes e não te tenho visto. Algum problema?
- Não, mas como sabes estamos confinados, e tu também, TÁBEM!
- Com  finados? Já morreu alguém por aqui?
- Confinados, isto é, em isolamento por causa do corona vírus.
- … do cabronavírus?  Eh, eh, eh …
- Podes dizer  COVID19, que para ti é mais fácil, TÁBEM.
- E o teu cão? Também não o tenho visto, mas parece que agora está na cave…
- Na cave? Eu nem sequer tenho cave…
- Não tens ? Então o que quer dizer essa placa aí no muro, PODESERQUE?
- CAVE CANEM?  Mas isto é latim ,TÁBEM, e quer dizer cavem, que vem aí o  cão!
- E da tua dor nas costas, PODESERQUE, como vais?
- Bem melhor, comecei agora a tomar uns comprimidos…
- Que comprimidos são,  PODESERQUE?
- São  PARECETÁMOLE,  dois por dia.
- Olha,  PODESERQUE, a julgar pelo nome, mal não devem fazer…

ZÉ BAIRRADA
MAIO/2020 

O encontro extraordinário
Foi  numa tarde depois do lanche, que era praxe em casa da avó.

A menina saiu de casa para passear no bosque. Levava um training azul e fitinhas da
mesma cor nas pontas das tranças do seu cabelo loiro veneziano e, ao andar, parecia dançar, graciosa e ligeira.

Todos os dias passeava por ali e conhecia os trilhos como ninguém: até a avó lhe perguntava por vezes qual o caminho que aconselhava para chegar depressa à aldeia do lado poente, ou ao burgo situado a sul.
Quando chovia, a menina ficava à janela a ver os pingos que se poisavam nos vidros e iam descendo vagarosamente e, misturando-se uns aos outros, iam formando grandes gotas que acabavam em rios resvalando pelo poial. Por vezes, abria uma fresta de janela para cheirar o perfume da terra.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Sobre "A Fada Oriana", Sophia de Mello Breyner Andresen

            E se a história acabasse mal?

Oriana foi tentada pela vaidade quando encontrou o peixe e esqueceu-se de todos os seus deveres para com os outros.
A consciência de Oriana, sentadinha no seu ombro esquerdo, alertou-a para a sua vaidade e a necessidade de voltar atrás e cumprir as suas promessas. Mas ninguém lhe restituía aquilo que havia perdido!
E um dia, ao ver o perigo ameaçar a sua amiga velhinha, esqueceu-se da sua condição e lançou-se no espaço como se ainda tivesse asas e varinha.
Mas a atenção da Rainha das Fadas Boas salvou-as!


Tal como Oriana, Narciso encantou-se consigo mesmo.
Vendo-se espelhado nas águas de um rio, julgou contemplar o mais belo rapaz do mundo e, apesar das suas tentativas para o apanhar, nunca o conseguiu.

Eco alertava-o mas ele nem a ouvia e manteve-se em contemplação sem comer nem beber.
E o poder divino do Deus dos Deuses castigou-o pela sua vaidade.

Ana Gaio
Janeiro 2020

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sobre "O Silêncio", Sophia de Mello Breyner


Um Grito 
Dentro de casa reinava a ordem, a harmonia, a satisfação do dever cumprido. Louça lavada, tudo nos lugares, arrumado e limpo. Não é segredo para ninguém o quão cansativas são as lides domésticas e quanto as costas se ressentem e as mãos ficam ásperas! Mas finda a faina, que bom é ver reflectido o brilho da luz na brancura dos azulejos da cozinha e admirar as sombras que se alongam nas dependências da casa e parecem dar vida aos objectos!
Joana fechou portas, apagou luzes e foi debruçar-se na janela, apreciando a noite serena, calma, silenciosa. Um momento mágico! Apenas uma brisa ligeira movimentava a rama dos cedros. Dentro dela, o silêncio! A contemplação dos astros e o silêncio davam-lhe a calma sensação de paz, de liberdade, de leveza de consciência. Fazia parte daquela magia, como se fosse o seu reino!
(Acho que há uma paragem no tempo, um momento, em que Deus como um verdadeiro ancião cansado, dormita um pouco… Satisfeito também ele, com o dever cumprido, delega no silêncio a tarefa de aquietar as almas, de serenar os espíritos.)
Foi nessa pausa doce e silenciosa, que Joana se envolveu. Nesse repouso de Deus e do Universo. De repente, a doçura daquela maravilhosa quietude foi quebrada… O sino da torre, a sirene de um barco no rio e um grito enorme, que salpicou de amargura o tranquilo silêncio da noite: uma mulher atirava ao silêncio a sua dor, como uma pedra atirada ao charco… Continuava, gritando… Ora como um triste lamento, ora como um uivo! O homem que a acompanhava tentava tirá-la de junto do muro do edifício da prisão ali existente. Enlaçava-lhe os ombros, pedindo-lhe ou talvez ordenando-lhe que se calasse.
Que papel desempenharia este edifício na dor da pobre mulher?
Qual seria o seu significado neste súbito quebrar de silêncio?
E porque escolheria semelhante local para expandir a sua dor?
O coração de Joana sofreu o horror da impotência…
Quem era, porque sofria, como ajudar?
(E Deus, cansado, dormia. Não escutou aquele grito desgarrado!)


Elita Guerreiro 23/10/2019

Partindo de poemas de Jorge de Sena

Partindo do poema Desencontro de J. de Sena:

[Desencontro
Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.
Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum']

Perturbação

Querer encontrar a paz é uma aposta
Onde procurar é letra morta
E ela não está nunca onde se está

Será então em vão que se procura ?
E se se encontra, ela nunca dura
Há sempre uma luz fria que nos cega
Um ruido fatalmente nos desperta
É um desencontro sem encontro certo
O simplesmente estar já a perturba
E a paz foge para bem longe

Para lá do onde não se está

M.F. 2.11.19

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Textos sobre Sophia de Mello Breyner

PARA SOPHIA M. B. ANDRESEN
Nasceu há 100 Anos (06-11-1919

Já não está entre nós fisicamente, mas a sua obra permanecerá para sempre na nossa memória.

Era um ser humano íntegro e belo. Os valores pelos quais lutou  respiravam por todos os poros do seu corpo: Liberdade, Justiça e Verdade. Foram estes os conceitos  que lhe pautaram a vida e, por reflexo, a obra.

Nunca se sentia satisfeita, queria ir sempre mais além para atingir o cobiçado Graal da Perfeição e Pureza.

Sophia amava a vida à sua maneira. Na sua caminhada pela escrita, recorria por vezes às suas origens e ao valor do simbolismo, que tinha para ela a Luz e a Cor das coisas que a rodeavam.

Talvez por isso ela tenha tido um amor imenso pelo Mar: lavava-lhe a alma como se fosse um baptismo, despertando nela os sentidos para escrever sobre esse amigo infinito que, tão depressa, estava calmo como, de repente, se tornava aterrador. Como naquele dia carregado de nuvens negras… Lá ao longe, num farol abandonado à fúria das grandes vagas do mar de que tanto gostava, Sophia conseguiu ver uma pequena luz que brilhava: seria o sinal da LIBERDADE tão esperada?
Se assim fosse, era capaz de subir a todas as arribas e nadar em qualquer Oceano, para a conseguir resgatar.

Finalmente, essa hora chegou na longa madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Foi o tempo esperado ao longo de uma vida inteira, que estava agora ao seu alcance, sem mordaças e sem amarras.

A Fénix tinha renascido naquela praia sem impureza e num espaço puro em que o Tempo e Sophia, apaixonadamente, acabavam de encontrar a tão sonhada e desejada “LIBERDADE”.

Azeitão, 16-10-2019

Carmo Bairrada