“RAMIRO”
Se alguma vez a voz lhe saiu
espontaneamente da garganta, deve ter sido quando em criança disse as
primeiras palavras, porque de há longo tempo a esta parte, ninguém lhe
arrancava mais que um “Han”…
O silêncio melancólico das serras onde apascentava
o seu rebanho quebrara-lhe a voz e a vontade de contactar com os seus
semelhantes. Tal como os animais rastejantes ou não, que com ele conviviam no
silêncio do Marão e com ele partilhavam não só o espaço, mas o mesmo mutismo,
Ramiro via passar os dias e os anos, só, entre o céu e a terra.
Dir-se-ia que era desprovido de
sentimentos, de sensibilidade! Ah!...
Mas não era essa a verdade. No coração
do Ramiro, havia uma Rosa.
Rosa que era um espinho cravado no mais
fundo do seu ser! Assobiar-lhe, como fazia com o seu rebanho, não resultaria,
ele sabia isso. Dentro de si, o silêncio tinha alastrado tão completamente, que
não tinha mais expressão vocal do que aquele assobio com o qual se entendia com
as suas ovelhas e com o Laboreiro, o cão que o ajudava no pastoreio. E foi em silêncio
profundo, que naquele dia vingou a morte da Mimosa, uma das mais bonitas
ovelhas do rebanho, que em breve daria à luz, não fora a pedrada
certeira que Ruela lhe assentou. Pobre Mimosa!...
“Sem intenção”:
defendeu-se o agressor! Tarde demais…
Silenciosamente, Ramiro ergueu a foice
de lâmina afiada, que foi cair como um raio sobre a cabeça do infeliz,
sem que nada a detivesse!
Apenas a serra, o velho e silencioso Marão
testemunharam o desfecho daquela tragédia. E o silêncio continuou.
Dentro e fora daquela alma, muda como um túmulo. Talvez o Marão nem
tenha feito repercutir o eco daquele assobio, chamando as
ovelhas para o redil!...
Elita Guerreiro *24/5/2018
