BREVE ENSAIO SOBRE O
ROMANCE DA RAPOSA
Este texto destina-se a todos
aqueles que ainda não leram o “Romance da Raposa”. Escrevemo-lo para falar das histórias
fascinantes da raposa Salta Pocinhas, das personagens que se movimentam no
romance, da beleza dos seus diálogos, da verdade dos seus conteúdos e das
mensagens que encerra.
O Natal de 1924 terá sido para
Aníbal muito especial. Seu pai, Aquilino Ribeiro escrevera o “Romance da
Raposa” para o presentear naquele dia festivo. Aquilino, antes de iniciar o
romance, dedica ao filho algumas palavras. Nessa dedicatória, o autor escreve
sobre a veracidade da obra e sobre a realidade da vida na natureza. Sublinha o
facto das personagens serem todas reais, com voz para que possam “manifestar o
que são” e alerta que viverão situações dramáticas, violentas, de vida ou de
morte, tal como ditam as leis da natureza. Finalmente, apresenta-lhe a raposa
Salta Pocinhas, heroína do romance. Fala-lhe da sua sabedoria e salienta a sua astúcia
e a mestria com que consegue arquitetar artimanhas únicas.
O romance, propriamente dito, começa
por descrever as andanças da raposinha numa altura em que, por ter atingido a
maioridade, iniciara uma vida nova. Acabara de abandonar o confortável covil
dos seus progenitores, tendo ficado entregue a si própria. Sem casa, sem reserva
de alimentos e sem rumo definido, experimentava algumas dificuldades e o
desânimo estava latente. Por isso, nas poucas horas de descanso que ia tendo, vinham-lhe
à cabeça os bons tempos da juventude junto dos pais e dos irmãos. Recordava
então, com saudade, a farta e confortável vida que tivera no passado, as
brincadeiras, as caçadas, os banquetes…
Como veremos, a raposa, matreira
e determinada, irá sempre conseguir sair por cima quando em confronto com o
lobo D. Brutamontes, vice-rei daquelas paragens. D. Brutamontes, personagem
importante do romance, senhor de uma força considerável, mostra uma grande ingenuidade
e uma inteligência algo limitada. O teixugo D. Salamurdo, cortesão e assessor
da corte, tem um comportamento de subserviência pelo que, pouco ou nada conta na
corte do vice-rei. Outro interveniente de grande importância no romance é o
urso sábio dos saltimbancos: personagem simpática, experimentada, conhecedora
é, sem dúvida, uma voz da justiça naquelas paragens.
Quanto ao bicho homem, o autor
não lhe reconhece protagonismo especial. Sempre que lhe dá algum palco, procura
reduzir as suas intervenções ao mínimo necessário. Outras personagens, por certo
não menos relevantes, evoluem nos diferentes capítulos, tais como: o lince, o
corvo, a fuinha, cavalos, doninhas, arganazes, o bufo, gato bravo e tantos
outros.
Apresentados os protagonistas, voltemos
ao livro. Ao folheá-lo, ao acaso, deparámos com a página onde o lince, perante
toda a bicharada ali reunida a pedido do lobo, lê uma importante proclamação a
mando do vice-rei. Nessa proclamação, o lobo acusa a raposa de ter esfolado o
teixugo e promete alvissaras a quem entregar a malvada à sua justiça. Entretanto,
o urso que havia escutado a proclamação, aproveitou o facto de estarem todos
reunidos para se dirigir à comunidade e tentar repor a verdade. Argumentava que, embora a raposa tivesse induzido o lobo a
tirar a pele ao teixugo, a verdade é que fora o próprio lobo a cometer o crime.
Sem casa para descansar e com grandes
dificuldades na obtenção de alimentos, a raposa ia sonhando com a confortável
toca do teixugo e havia ficado a salivar com as fressuras que vira na casa do
lobo. Na verdade, a raposa estivera no palácio de D. Brutamontes quando, depois
de uma acesa discussão com o teixugo, o seguira até ao palácio do vice-rei. Na
altura, o teixugo não havia suportado o odor deixado pela raposa nos seus
aposentos e, por via disso, tinha-se apressado a visitar o lobo com o intuito
de se queixar da raposa. Ao chegar ao palácio do vice-rei, a raposa instalou-se
num local privilegiado, que lhe permitiu ver e ouvir toda a conversa do
vice-rei com o teixugo.
Do que ouviu, percebera que o
lobo estava a contas com uma dor de dentes insuportável ao ponto de, para
minimizar as dores, ter amarrado um lenço à volta da queixada. Assim que o
teixugo deixou o palácio, a raposa aproximou-se da entrada e chamou pelo lobo. Após
os cumprimentos da praxe, a Salta Pocinhas logo se disponibilizou para o que o
vice-rei entendesse ser necessário. O lobo, conhecedor dos dotes medicinais da
raposa, implorou que o libertasse de tamanho sofrimento. De imediato a raposa
lhe prescreveu a mesinha que terá considerado mais adequada, ou seja: tão
depressa quanto possível, o lobo deveria colocar, sobre o seu real focinho, a
parte interior da pele de teixugo bem fresquinha, ou seja, acabadinha de deixar
o corpo. O vice-rei nada mais quis ouvir e, após ter pedido à raposa que o
esperasse no palácio, partiu na peugada do teixugo que, de acordo com os seus
cálculos, não poderia estar muito longe.