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segunda-feira, 20 de junho de 2022

Romance da Raposa: percurso de Salta-Pocinhas

 

ROMANCE DA RAPOSA

Da Infância, à Adolescência e por fim a fase Adulta  

A Raposa Salta-Pocinhas teve uma infância muito mimada. Sempre teve o que lhe era necessário sem nada fazer para que os pais, já velhos, descansassem. Certo dia, a Mãe entendeu que ela já estava na idade de trabalhar e não ficar à espera de ter tudo de mão beijada e teve uma conversa séria com a filha, em que lhe disse:

Salta-Pocinhas já tens idade de procurar um ofício. Comer e dormir, dormir e comer também eu queria. Olé! Se ainda o não sabes, fica sabendo: Quem não trabuca não manduca”. Estás na idade de te conduzir por tua cabeça.

A Raposa chorou, mas não conseguiu mudar as ideias da mãe. Esta só lhe disse:

“Santa paciência”! Abriu a porta e ela saiu.

Andou 3 dias e 3 noites sem conseguir arranjar de comer e um buraco para dormir; safava-se com uns míseros gafanhotos, que ia encontrando.

Sentia-se cansada e pensou em voltar para casa, mas as últimas palavras, que a mãe lhe dirigira, atormentavam-lhe a cabeça e o espírito.

A Raposa Salta-Pocinhas sabia que estava por conta própria até ser independente e poder ter uma vida sossegada e honesta, de forma a ser respeitada. Chegara à adolescência: emancipou-se,

Romance da Raposa: características de algumas personagens


ROMANCE DA RAPOSA

CARACTERÍSTICAS DE ALGUMAS PERSONAGENS

E SEUS SIGNIFICADOS

 

RAPOSA SALTA-POCINHAS

ARDILOSA (Disfarçada)

ASTUCIOSA (Sagaz)

BRIOSA (Orgulhosa)

EMBUSTEIRA (Mentirosa)

FAGUEIRA (Meiga)

IRRESSOLUTA (Hesitante, Indecisa)

LAMBISQUEIRA (Comilona)

LUZIDIA (De pêlo brilhante)

MANHOSA (Hábil, Maliciosa)

MATREIRA (Esperta, Experiente)

PINTALEGRETA (Alegre, Pimpona, Pedante)

RAPOSETA (Raposa Jovem)

RATONEIRA (Larápia)

SUBTIL (Engenhosa, Delicada, Mansa)

TEMEROSA (Medrosa, Temível)


MÃE DE SALTA-POCINHAS

BOA CONSELHEIRA (Dá bons Conselhos)

BOA EDUCADORA (Dá uma boa educação)

BOA MÃE (Bondosa)

BONDOSA (Benévola)

CAUTELOSA (Prudente, Cuidadosa)

DESCONFIADA (Receosa)

DETERMINADA (Sem Medo, Corajosa, Audaz)

Dra. em LÁBIA (Convicta, Persuasiva)

RESPEITÁVEL (Digna de Respeito)

SÁBIA (Que sabe muito, tem muitos conhecimentos)

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Convite à leitura do "Romance da Raposa", por Fernando Amaral

 BREVE ENSAIO SOBRE O ROMANCE DA RAPOSA

Este texto destina-se a todos aqueles que ainda não leram o “Romance da Raposa”. Escrevemo-lo para falar das histórias fascinantes da raposa Salta Pocinhas, das personagens que se movimentam no romance, da beleza dos seus diálogos, da verdade dos seus conteúdos e das mensagens que encerra.

O Natal de 1924 terá sido para Aníbal muito especial. Seu pai, Aquilino Ribeiro escrevera o “Romance da Raposa” para o presentear naquele dia festivo. Aquilino, antes de iniciar o romance, dedica ao filho algumas palavras. Nessa dedicatória, o autor escreve sobre a veracidade da obra e sobre a realidade da vida na natureza. Sublinha o facto das personagens serem todas reais, com voz para que possam “manifestar o que são” e alerta que viverão situações dramáticas, violentas, de vida ou de morte, tal como ditam as leis da natureza. Finalmente, apresenta-lhe a raposa Salta Pocinhas, heroína do romance. Fala-lhe da sua sabedoria e salienta a sua astúcia e a mestria com que consegue arquitetar artimanhas únicas.

O romance, propriamente dito, começa por descrever as andanças da raposinha numa altura em que, por ter atingido a maioridade, iniciara uma vida nova. Acabara de abandonar o confortável covil dos seus progenitores, tendo ficado entregue a si própria. Sem casa, sem reserva de alimentos e sem rumo definido, experimentava algumas dificuldades e o desânimo estava latente. Por isso, nas poucas horas de descanso que ia tendo, vinham-lhe à cabeça os bons tempos da juventude junto dos pais e dos irmãos. Recordava então, com saudade, a farta e confortável vida que tivera no passado, as brincadeiras, as caçadas, os banquetes…

Como veremos, a raposa, matreira e determinada, irá sempre conseguir sair por cima quando em confronto com o lobo D. Brutamontes, vice-rei daquelas paragens. D. Brutamontes, personagem importante do romance, senhor de uma força considerável, mostra uma grande ingenuidade e uma inteligência algo limitada. O teixugo D. Salamurdo, cortesão e assessor da corte, tem um comportamento de subserviência pelo que, pouco ou nada conta na corte do vice-rei. Outro interveniente de grande importância no romance é o urso sábio dos saltimbancos: personagem simpática, experimentada, conhecedora é, sem dúvida, uma voz da justiça naquelas paragens.

Quanto ao bicho homem, o autor não lhe reconhece protagonismo especial. Sempre que lhe dá algum palco, procura reduzir as suas intervenções ao mínimo necessário. Outras personagens, por certo não menos relevantes, evoluem nos diferentes capítulos, tais como: o lince, o corvo, a fuinha, cavalos, doninhas, arganazes, o bufo, gato bravo e tantos outros.

Apresentados os protagonistas, voltemos ao livro. Ao folheá-lo, ao acaso, deparámos com a página onde o lince, perante toda a bicharada ali reunida a pedido do lobo, lê uma importante proclamação a mando do vice-rei. Nessa proclamação, o lobo acusa a raposa de ter esfolado o teixugo e promete alvissaras a quem entregar a malvada à sua justiça. Entretanto, o urso que havia escutado a proclamação, aproveitou o facto de estarem todos reunidos para se dirigir à comunidade e tentar repor a verdade. Argumentava que, embora a raposa tivesse induzido o lobo a tirar a pele ao teixugo, a verdade é que fora o próprio lobo a cometer o crime.

Sem casa para descansar e com grandes dificuldades na obtenção de alimentos, a raposa ia sonhando com a confortável toca do teixugo e havia ficado a salivar com as fressuras que vira na casa do lobo. Na verdade, a raposa estivera no palácio de D. Brutamontes quando, depois de uma acesa discussão com o teixugo, o seguira até ao palácio do vice-rei. Na altura, o teixugo não havia suportado o odor deixado pela raposa nos seus aposentos e, por via disso, tinha-se apressado a visitar o lobo com o intuito de se queixar da raposa. Ao chegar ao palácio do vice-rei, a raposa instalou-se num local privilegiado, que lhe permitiu ver e ouvir toda a conversa do vice-rei com o teixugo.

Do que ouviu, percebera que o lobo estava a contas com uma dor de dentes insuportável ao ponto de, para minimizar as dores, ter amarrado um lenço à volta da queixada. Assim que o teixugo deixou o palácio, a raposa aproximou-se da entrada e chamou pelo lobo. Após os cumprimentos da praxe, a Salta Pocinhas logo se disponibilizou para o que o vice-rei entendesse ser necessário. O lobo, conhecedor dos dotes medicinais da raposa, implorou que o libertasse de tamanho sofrimento. De imediato a raposa lhe prescreveu a mesinha que terá considerado mais adequada, ou seja: tão depressa quanto possível, o lobo deveria colocar, sobre o seu real focinho, a parte interior da pele de teixugo bem fresquinha, ou seja, acabadinha de deixar o corpo. O vice-rei nada mais quis ouvir e, após ter pedido à raposa que o esperasse no palácio, partiu na peugada do teixugo que, de acordo com os seus cálculos, não poderia estar muito longe.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Romance da Raposa (2.a parte, IV)


RESUMO DO 4º. CAPÍTULO – 2ª. PARTE

ROMANCE DA RAPOSA

A Comadre Salta-Pocinhas faltou ao habitual encontro. A Raposa Patifina e as amigas correram tudo à sua procura, não conseguindo encontrá-la.

Foram até à boca da mina e gritaram pelo seu nome, até que ouviram uma voz fraca dizendo que estava com a peste. As raposas fugiram à excepção de Patifina que acabou por ficar e descobrir que a Comadre Salta-Pocinhas estava a banquetear-se com uma boa peça de carne fresca. Ela convida-a. Patifina aceita e sai de barriga cheia, pensando que tinha descoberto o sítio certo, onde a comida não lhe faltaria.

No dia seguinte, apareceu sozinha, sem lhe passar pela cabeça ser recebida pelo Lobo Brutamontes. A Raposa Patifina fugiu, comentando consigo que se juntara a Manha com a Bruteza.

Numa manhã fria e nublada, os Compadres decidiram sair para caçar. De repente, passou por eles uma mulher com um cesto à cabeça e o  Lobo quis atacá-la. Salta-Pocinhas advertiu-o para que não o fizesse, pois ficariam sujeitos a serem vistos pelos homens que limpavam a mata. Pediu para ficar onde estava, que ela continuaria a seguir a mulher. Mais adiante, olhou o céu e viu que a Lua Cheia já estava a descoberto, reflectida na água da poça.

A Comadre chamou o Lobo, contou-lhe que a mulher do cesto escorregara e caira do cesto um queijo que fora parar dentro de água. O Compadre cobiçou o queijo…

A Comadre Salta-Pocinhas explicou-lhe que o que resultaria era que os dois fossem para dentro da poça e bebessem toda a água que pudessem, pois assim o queijo viria ao cimo. 

Com grande impaciência, o Lobo bebeu água até não conseguir andar a direito, enquanto a Comadre só molhou a boca. Como o queijo não viesse à tona, Salta-Pocinhas disse-lhe que esperasse, pois ia à procura de uma enxada para o retirar da água.

Aí chegada, regouga e atrai os homens da mata que ao ouvi-la a perseguem. De repente, deixam de a ver. Voltaram para trás, viram o Lobo Brutamontes sem se mexer e deram-lhe uma sova, seguida de apedrejamento, ficando sem se poder vingar, enquanto a Salta-Pocinhas se deliciava com o almoço dos mateiros.

Quando a Comadre chegou de barriga cheia e viu o estado em que ele estava, encolheu uma pata e coxeou, queixando-se que tinha muitas dores, pedindo ao Compadre que a levasse às cavalitas, pois iam ser mortos pelos mateiros. O Lobo negou-se. A Comadre começou a carpir – se de tal maneira, que ele acabou por consentir. Quando se apanhou às cavalitas, começou a cantar. A sua astúcia, mais uma vez, contribuiu para humilhar o Lobo Brutamontes, que se considerava muito esperto.

 Azeitão, 01-05-2022 

Carmo Bairrada

quarta-feira, 23 de março de 2022

Romance da Raposa (2.a parte, III)

 RESUMO DO CAPÍTULO 3 – 2ª. PARTE

A Comadre Salta-Pocinhas estava trôpega, caduca, magra, com reumático, a pele  a cair.  Mantinha-se lúcida, refinara a astúcia e a manha.

Ela nunca mais caçara, não tinha forças para o fazer. Andava a pedir comida pelos bosques, serras e aldeias.

No Verão, o que lhe valia era a astúcia cada vez mais sabida e apurada. Vivia dos grilos, ralos, rãs, insectos e das maçarocas desfazendo-se em rebuçados de farinha, leite, mel e espigas mais cheias que desfolhava e comia com prazer.

O Inverno era a pior altura do ano para a sua saúde, fazia muito frio. Ficava na toca toda enrolada, a dormir dias inteiros sem nada comer.

O que a fazia estar viva eram os momentos em que adormecia, e pensava o que tinha vivido com o Raposão: a cumplicidade entre ambos, as aventuras das caçadas e o amor que sentiam um pelo outro.

Naquele ano, o Estio foi muito quente: trouxe consigo uma terrível praga de pulgas, os bichos não lhe viam o fim. Resolveram ir até à toca da Raposa conhecida por ”mezinheira e “benzedeira”, esperando que tivesse solução para o problema.

Disse-lhes que ia tentar resolver o assunto, mas que para isso todos teriam de lhe entregar uma peça de caça e cumprir à risca as instruções que lhes fossem dadas.

Todos aceitaram. Mandou cada um para seu lado, em silêncio e não sabendo de nada uns dos outros, todos mergulharam na água da ribeira e as pulgas ficaram no musgo que tinham de colocar na boca.

Mais uma vez, a Raposa conseguiu ter comida para algum tempo sem se preocupar.

Como sempre, valeram-lhe a astúcia e a manha cada vez mais apuradas.

Carmo Bairrada

Azeitão, 05-03-2022

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte, VI)

 RESUMO DO 6º. CAPÍTULO – 2ª. PARTE

ROMANCE DA RAPOSA

Mal sabia Salta-Pocinhas que os trapos que roubara viessem a ser o disfarce perfeito, que lhe abriria novos caminhos para as suas velhacarias. Vestia o disfarce: todas as noites sobre os bosques pairava o terror, desde que aparecera esse Monstro vestido à maneira das velhas da aldeia.

O ardil tinha um fim: ficar com a caça fresca que os ratoneiros apanhavam para seu sustento. Eles fugiam, a caça ficava para trás. O Monstro enchia a barriga com enorme prazer e satisfação.

Os bichos, fracos e com fome, reuniram-se pedindo ajuda, para que desaparecesse o dito Monstro. Na assembleia, o Lobo Brutamontes, pediu silêncio, para dar a palavra à Comadre Salta-Pocinhas.  

No seu discurso, disse que iria tentar que o flagelo acabasse, desde que os bichos assinassem um pacto para ela ter direito ao sustento e sobrevivência, pois já era velha e doente: da caça que pilhassem, dar-lhe-iam metade e quem não caçasse, era multado.  

A discussão foi longa e agitada mas, finalmente, aceitaram o pacto.

A Comadre Salta-Pocinhas pediu para estarem atentos a um regougar que faria, caso fosse bem sucedida, e nessa altura poderiam ir ter com ela, junto à ribeira.     

Chegou a casa, pegou num saco onde tinha o que era preciso e correu até ao primeiro palheiro: fez um grande boneco de palha, vestindo-lhe as roupas velhas do seu disfarce.

Quando regougou, apareceram todos e viram um corpo de costas viradas para cima ser arrastado pela água da ribeira. O Monstro desaparecia para sempre. Felizes e contentes, levaram em ombros a Comadre Raposa.

De novo abriu a escola para dar lições aos raposinhos: contava-lhes as suas próprias histórias de vida que eles adoravam ouvir. Foi dessa forma que Salta-Pocinhas lhes ensinou como deviam viver, a partir da altura em que saíssem de casa dos pais, para se fazerem à vida. A Comadre ainda viveu uns bons anos, sentindo-se amada, respeitada e feliz.

Azeitão, 21-05-2022

Carmo Bairrada

sábado, 22 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte, V)

A RAPOSA MATREIRA SEM  EMENDA!

 Será desta vez que o lobo Brutamontes deixa de cair nas manhas da raposa? ”Vale ser burro, mas não tanto!” Que me perdoem os burros, que só o são de nome… Brutamontes não quer mais alianças com Salta- Pocinhas!

 A raposa estava a ficar velhota, mas  manhosa como é e conhecendo-a os animais, como a conhecem, têm dificuldade em acreditar nas melhorias do seu endiabrado carácter! Era com alguma relutância que lhes prestavam ajuda, quando, lamuriando, lhes batia à porta, pedinchando algo com que enganar o estômago! Alguns, mais condoídos, iam caíndo na cantilena da preguiçosa - mor! Mas, tal como se passa connosco, os “Humanos”, salvo devidas excepções, no reino animal ninguém dá nada sem receber algo em troca!

A descarada raposa, em troca de alguma comida, via-se forçada a fazer alguma coisa para merecer alguma comida: enquanto os pais iam caçar, tomava conta dos pequenos raposinhos. E nós, que já lhe conhecemos o jeito de fingida e trapaceira, sabemos como lhe é fácil insinuar-se,quando se trata de passar a perna aos mais crédulos! Ora aí está ela pronta a esquecer o bem que lhe fazem, roubando aos pequenotes o comer que os pais lhe deixavam! Sabia a bandida que, pequenos como eram, não saberiam contar como eram maltratados e não se queixariam! Velha, trôpega e esfomeada, voltava a bater a mata em busca de algum alimento. Mas já não era a mesma “raposeta, jovem, vestida de pêlo sedoso e pata ágil”, que todos tinham conhecido: os animais troçavam da sua decrepitude: “Quem te viu e quem te vê”! Mais uma vez  o reino animal nos surpreende, pela semelhança com este reino ao qual chamamos Humano! As artimanhas desta velha aventureira trazem-nos à memória o procedimento desonesto daqueles que vivem de expedientes, vigarizando e prejudicando os que se julgam espertos, acabando por cair nas suas garras enganosas. Uma grande ideia, mais uma, saiu da cabeça daquela velha matreirona sagaz: abriria uma escola para ensinar pequenos raposinhos! Pensar e pôr em prática foi um ápice!... E foi tão bem aceite e tão festejada esta ideia, que nem baile faltou!... Que cabeças de alho chocho! Então não conheciam  a pretensiosa professora?

 As aulas, muito concorridas, abriram com uma importante lição: óculos na ponta do nariz, começou por ensinar, com ênfase, sobre o verbo roubar. Depois fez desfilar, ante o olhar atento dos alunos, os malefícios dos Invernos, nos quais a caça é difícil, porque os animais se escondem nas tocas, alguns por largo tempo; do Outono, cuja boa disposição é preciso saber aproveitar, porque nuns dias despe todas as árvores do bosque e, noutros, o sol morninho convida a uma saída para caçar: alguns bichos vêm apanhar um pouco de sol e aí zás!... é um vê se te

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O Romance da Raposa (2.a parte: I)

RESUMO DO 1º CAPÍTULO – 2ª. PARTE –

“O ROMANCE DA RAPOSA”

A Raposa Salta-Pocinhas casou e teve 3 filhos.

Na altura morava na antiga Toca do Texugo, que era pequena, mas para ela servia. Agora, que a família aumentara, mudara-se para uma Toca grande, que mais parecia o labirinto de um castelo. O marido adaptara a nova casa em termos de segurança e habitabilidade.

Na casa de Salta-Pocinhas, a despensa estava agora sempre cheia, pois havia sempre um poleiro a saque e os filhos cresciam gorduchos e bem alimentados. Num dia de caça, o Pai Raposo foi apanhado por uma armadilha, ficou rodeado de cães e acabou por morrer. Salta-Pocinhas conseguiu fugir e isolou-se em casa com os filhos.

A partir dessa altura, ficou transtornada: não saía de casa em busca de alimento, os pequenotes choravam com fome, andando à volta dela de manhã à noite. O medo tinha-se instalado na Mãe Raposa, desculpando-se com o mau tempo, até que uma manhã se encheu de coragem e acabou por sair de casa para procurar alimento.

Correu tudo e acabou por caçar e comer um insecto e um coelho, a quem enganou com a sua astúcia e lábia, lamentando-se depois de ser uma “mãe desnaturada”, pois saciara a fome e não deixara nada para os filhos. Continuou em vão a sua procura, até que, já o sol se tinha posto, decide temerariamente correr para o pátio rico onde o marido perdera a vida e, em frente de um galinheiro bem recheado, fez um assalto repentino e conseguiu sair com caça grossa para levar para casa, apesar da perseguição dos humanos e do cão.

A batalha estava ganha: os seus filhos teriam alimento.

REFLECTINDO:

Salta-Pocinhas foi Mentirosa, Egoísta, Insensata e Lambisqueira, uma Mãe irresponsável, que só pensou nela.

A Consciência salvou-a!

Carmo Bairrada

Azeitão, 10-02-2022 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

O Romance da Raposa (1.a parte: I, II)

 O ROMANCE DA RAPOSA (Capítulos I e II)

Versão reduzida

Já tinham passado três dias e três noites, desde que a Salta - Pocinhas saíra da toca dos seus progenitores, onde sempre vivera e crescera. Ali, na casa dos pais, sempre tivera conforto, segurança e algo para comer. A saída ocorreu, porque a raposinha tinha atingido a maioridade e, por isso, também os pais lhes lembravam, constantemente, que havia chegado a altura de “cair na estrada” e assumir a sua autonomia.

A verdade é que se encontrava, como é costume dizer-se, “no mato sem cachorro”, entregue a si própria, assustada, esfomeada e sem teto. Esta situação levou a que recordasse o covil paterno com muita saudade, chegando ao ponto, ainda que por momentos, de desejar o regresso “aos braços da sua mãe”. Por algum tempo lembrou o conforto, a segurança e a fartura que sempre existia na casa dos pais. Porém, reconheceu que nada havia a fazer. Sendo assim, “bola para a frente”: reuniu energias e avançou na procura de cama fofa e resguardada, algo para comer, enfim, alguém a quem pudesse tirar aquilo que lhe fazia falta.  

Depois desta “auto - injeção” de ânimo e de confiança, voltou à luta e retomou o caminho. Caminhava havia algum tempo, quando encontrou o irmão Pé Leve que por ali vagueava, tal como ela, na procura de sustento. Pé Leve era conhecido por ser um exímio caçador e um “danado salteador”. Do encontro nada resultou de substancial a não ser a notícia, dada pelo Pé Leve, de que o teixugo Salamurdo, pessoa bem instalada na vida, bondoso e cortesão da corte do vice-rei D. Brutamontes, teria “pegado pata” e, por isso, a sua despensa deveria estar bem recheada.

Continuou a Salta Pocinhas, agora com o pensamento fixo no solar do teixugo. Neste trajeto topou várias personalidades, todas elas súbditos de D. Brutamontes. A todas dava conta da frágil situação em que se encontrava, usando para isso os modos e o ar que considerava mais adequados a cada situação; ao mesmo tempo, a todos inquiria se sabiam onde morava o teixugo, que havia “pegado pata”. Quer a D. fuinha, quer o gato bravo, pouco ou nada adiantaram de interesse. Já o urso sábio dos saltimbancos, depois dos cumprimentos e dos salamaleques habituais, das lamúrias contra o húngaro (seu antigo dono) e da dificuldade em obter sustento, lembrou-se que conhecia o teixugo, personagem que a raposinha tanto procurava. A Salta - Pocinhas ouviu com toda a atenção as indicações do urso. Cada vez mais confiante, acreditando nas suas competências naturais, nas boas práticas e ensinamentos que os pais lhe proporcionaram, chegou finalmente à casa do teixugo. Era um autêntico solar, confortável, bem arejado e equipado, pasme-se, até tinha um sistema de fuga, pela parte traseira, de grande préstimo em caso de emergência.  

A raposinha, perante fosso tão apetecido, logo desenhou a estratégia adequada para conseguir pedaço de pata e, quem sabe, local para se acomodar e descansar. Cedo constatou que o ilustre cidadão se encontrava, bem confortável, nos seus aposentos interiores.

Houve uma troca de palavras, acesa, demorada e truculenta durante a qual a raposinha falou, acusou, implorou, saltou e tocou em tudo o que havia para tocar, nos espaços contíguos à habitação do teixugo. Com este expediente logrou espalhar os seus odores corporais, que sabia serem detestados pelo teixugo, por toda a mansão. Esta ação, premeditada, foi determinante para que o teixugo tomasse a decisão de abandonar os seus próprios domínios em busca de auxílio. E assim foi. Partiu de imediato para o palácio do vice-rei D. Brutamontes, onde iria queixar-se da “atrevida” e pediria pesado castigo para a “galdéria”.