Os Meus Brincos
Não me recordo se foi há muito
tempo ou não, mas um dia ouvi dizer que as pérolas estão ligadas à lua, à água
e à mulher. Acentuam a natureza lunar e feminina e a sua forma esférica está
perto da perfeição. Nasce das águas, de uma concha, encolhida como um feto.
A Vida ofereceu-me duas pérolas.
Com vaidade, colocava-as nas orelhas e acariciava-as, entre os dedos, como se
de minhas filhas se tratassem. Uma de cada lado, de mãos dadas, para que não se
afastassem. Como se aquele aperto de mão as protegesse e as mantivesse sempre
comigo. Olhava-me uma última vez ao espelho para ter a certeza de que o
equilíbrio do conjunto reflectia a minha felicidade.
Com o tempo, fui perdendo
segurança em usá-las. Os dedos, magoados por instantes e por palavras, e os
olhos turvos, por lágrimas e pelos anos, criaram-me insegurança. Tenho
dificuldade em alindar-me. Falta-me vontade e oportunidade. Falta-me o tempo
consumido, durante anos, enquanto afagava as formas esféricas dos corpos das
minhas meninas.