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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cantigas Paralelísticas - Inéditos

Nas Ondas do Mar

Nas Ondas do Mar lá fora,
Já meu amigo não mora
Nas ondas do mar

Lá fora nas ondas do mar
Deixou ele de morar
Nas ondas do mar

Já meu amigo não mora
Por isso minha alma chora
Nas ondas do mar

Deixou ele de morar
Eu continuo a chorar 
Nas ondas do mar
 Adalberta Marques

Menti quando me gabava

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Inéditos de Maria José Borges


Os Meus Brincos

Não me recordo se foi há muito tempo ou não, mas um dia ouvi dizer que as pérolas estão ligadas à lua, à água e à mulher. Acentuam a natureza lunar e feminina e a sua forma esférica está perto da perfeição. Nasce das águas, de uma concha, encolhida como um feto.
A Vida ofereceu-me duas pérolas. Com vaidade, colocava-as nas orelhas e acariciava-as, entre os dedos, como se de minhas filhas se tratassem. Uma de cada lado, de mãos dadas, para que não se afastassem. Como se aquele aperto de mão as protegesse e as mantivesse sempre comigo. Olhava-me uma última vez ao espelho para ter a certeza de que o equilíbrio do conjunto reflectia a minha felicidade.
Com o tempo, fui perdendo segurança em usá-las. Os dedos, magoados por instantes e por palavras, e os olhos turvos, por lágrimas e pelos anos, criaram-me insegurança. Tenho dificuldade em alindar-me. Falta-me vontade e oportunidade. Falta-me o tempo consumido, durante anos, enquanto afagava as formas esféricas dos corpos das minhas meninas.

"Eno sagrado, en Vigo" / "Cantar de Amigo"



Eno sagrado, en Vigo,
bailava corpo velido:
     amor hei!

En Vigo, no sagrado,
bailava corpo delgado:
     amor hei!

Bailava corpo velido,
que nunca houver'amigo:
     amor hei!

Bailava corpo delgado,
que nunca houver'amado:
     amor hei!

Que nunca houver'  amigo,
ergas no sagrad', en Vigo:
     amor hei!

Que nunca houver'amado,
ergas en Vigo, no sagrado:
     amor hei!
·         Martim Codax, (CV 889 / CBN 1283)



“Cantar de Amigo”
À beira do rio fui dançar… Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças… Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei… que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.

José Régio


Braços abertos, na vida,
Agarram tua partida:
Saudades tuas!

Na vida, braços abertos,
Agarram teu despedir:
Saudades tuas!

Agarram a tua partida,
Cercam tua fugida:
Saudades tuas!

Agarram teu despedir,
Cercam o teu fugir:
Saudades tuas!

Cercam tua fugida,
Soltam dor incontida:
Saudades tuas!

Cercam o teu fugir
Deixam lágrimas cair:

Saudades tuas!

Maria José Borges

DANÇANDO À BEIRA DO RIO”

Dança à beira do rio
Ao som da música das águas,
Desnuda-se sem ter frio
Alegre, não sente mágoas!
Mas o rio cruel separa
Os corpos de quem se ama,
A sua água clara
Ainda mais ateia a chama!

Viu-os, por entre os salgueiros
Quebrando a solidão,
Uns olhos tristes fagueiros
E acentuou a sedução.
Foi despindo os seus vestidos
E esquecendo o pudor,
Porque os seus cinco sentidos
Estavam com aquele amor!

As longas tranças desfeitas
Não encobrem a nudez,
E tu que de longe espreitas
Não vais contar o que vês!
Que coragem tem a paixão
Que esquece tudo em redor,
E deixa que o coração
Se torne rei e senhor!

Elita Guerreiro * 14/11/2015


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Bailias ou Bailadas

BAILIA OU BAILADA

Bailemos nós já todas três, ai amigas,
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida como nós, velidas,
                se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
                verrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
so aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanas,
                se amigo amar,
so aqueste ramo destas avelanas
                 verrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr'al non fazemos,
so aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,
                se amigo amar,
so aqueste ramo sol que nós bailemos,
                 verrá bailar.
 
Airas Nunez de Santiago (séc. XIII)



Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Vêm as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...

Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
Voam as andorinhas
À volta da flor.
Folgam as meninas.
E eu sem amor...

Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
Vão-se as andorinhas,
Cai do tempo a flor.
Guardam-na as meninas.
E eu sem amor...

Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
Fogem as andorinhas
Do tempo sem flor.
Sonham as meninas.
E eu sem amor...

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Passais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Voam as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...

Natália Correia, Cantigas de Amigo, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II



Saudades de Maio

Ai, quem me dera Maio
Seus tepores primaveris
As suas flores perfumadas
Primeiras noites nos jardins…

Ai, Maio dos meus amores
Dos namoros atrevidos
Das confidências baixinho