É incrementado o comércio, principalmente pelo estado, e criam-se novas rotas comerciais, assim como surgem novas técnicas de navegação… mas o “ velho do Restelo” criticou toda a técnologia desenvolvida para o efeito (ó maldito primeiro que no mundo / nas ondas velas pôs em seco lenho)
"O SÉNIOR" é um blogue de apoio a Literatura Portuguesa (da USAZ - Universidade Sénior de Azeitão), tendo em conta as necessidades, gostos e preferências manifestados. Nele se publicam também os trabalhos realizados pelos alunos.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Os Lusíadas – canto IV, 94-104 (por Teresa Barbato)
É incrementado o comércio, principalmente pelo estado, e criam-se novas rotas comerciais, assim como surgem novas técnicas de navegação… mas o “ velho do Restelo” criticou toda a técnologia desenvolvida para o efeito (ó maldito primeiro que no mundo / nas ondas velas pôs em seco lenho)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Sobre o "Velho do Restelo": enquadramento socio-cultural e breve interpretação
ENQUADRAMENTO HISTORICO-CULTURAL
O Teocentrismo (de TEOS, em grego: “Deus”) medieval dá lugar a uma nova forma de entender o Universo, o Antropocentrismo (de ANTROPOS, em grego: Homem), ao colocar o Homem como centro de interesse e estudo. Assim sendo, os deuses e os demónios passam para segundo plano, passando o principal papel para o Homem. O Homem acredita a partir daqui nas suas capacidades.Os mercadores e os burgueses surgem como nova força e com mais poder .
Desenvolvem-se a cosmografia, geografia, ciências naturais e outras.
A numeração é incrementada, pois é fundamental para a nova realidade dos negócios.
Surge a cronometria, o uso do relógio deixa de ser privilégio dos nobres.
Com o aparecimento de novos produtos, a economia sofreu um desenvolvimento muito grande, não só a nível nacional, mas europeu.
Surgem as primeiras instituições bancárias, com a necessidade de rapidez nas transações comerciais.
O poder de compra aumenta. A burguesia adquire um poder que a faz ascender socialmente.
A população emigra para os grandes burgos e o interior desertifica-se.
Com o aparecimento de novos produtos, criam-se novos hábitos alimentares.
Fontes: http//www.geocities.com
As motivações dos Descobrimentos Portugueses foram económicas e religiosas.A igreja estava interessada em novos fiéis e deu o seu apoio.
O Rei estava interessado em mais impostos e financiou.
Economicamente, Portugal estava muito debilitado. As comunicações e transporte de mercadorias faziam-se pelo mar mediterrânico, onde a Itália mandava.
A necessidade de ir às fontes buscar as mercadorias, a necessidade de conquistar novas terras, a experiência dos marinheiros (adquirida nas viagens a portos Europeus), a descoberta de instrumentos de navegação (astrolábio, etc. ) e o avanço na construção naval foram os motivos para se avançar na descoberta de novos rumos e novas terras, por mar.
Fontes: http//www.historiadeportugal.info/os-descobrimentos
Portugal tinha, como fronteiras, a Espanha e o mar.
A única alternativa de expansão era o norte de África, mais próxima mas menos arriscada e é dela que nos fala Camões, através do episódio simbólico do “Velho do Restelo”
sábado, 3 de dezembro de 2011
Sobre CAMÕES e a propósito do "Velho do Restelo"
O meu interesse por Os Lusíadas e pelo Poeta Camões vem dos bancos da escola. Achavam as outras crianças que falar de história, em especial de Camões, era um aborrecimento. Eu achava que o que a História dizia era muito pouco, que talvez não correspondesse à verdade, enfim… Começou ali o meu interesse pelas histórias que Os Lusíadas, pela pena de Camões, nos conta. Eu já era um pequeno “ rato de biblioteca”, demasiado curiosa para a minha idade, diziam. Os meus primeiros passos, ao terminar o exame da quarta classe, foram correr para a biblioteca da Cooperativa da Cova da Piedade. Enquanto as outras crianças festejavam com as famílias… eu festejava com os Lusíadas e o meu Poeta favorito. Foi aí que a minha curiosidade tomou forma de paixão pela poesia. A exaltação poética de Luís Vaz de Camões, não passando despercebida, aos meus onze anos, não era por outro lado, muito bem entendida. Eu relia as estrofes, com o dicionário sobre a mesa da biblioteca. Difícil e dura tarefa para os meus poucos anos. Cresci, fazendo perguntas sobre Camões. Para mim, ele não era apenas o romântico estudante, que espalhou poesias e charme, enlouquecendo as Tricanas em Coimbra, ou o charmoso e galante Poeta apaixonado pelas Infantas nas Cortes. Para mim, Camões foi o grande historiador, pois ninguém como ele soube contar, (“cantando”), a história dos Descobrimentos. Foi o desassombrado crítico, que soube dizer o mal, o bem e o péssimo, contido na desmedida ambição dos governantes da época. Mas foi o soldado que, como castigo desse mesmo desassombro, foi combater em Ceuta, onde perdeu um olho… o que não impediu que o seu talentoso engenho o levasse a ver mais longe e a descrever tudo o que sentia. É importante a maneira como narra a viagem de Vasco da Gama à Índia, a partida das naus, a descrição dos trajes dos marinheiros que nesta aventura o acompanharam. É também notável a descrição poética do Velho do Restelo e, toda a narrativa da História de Portugal (em retrospectiva) feita pelo Gama ao Rei de Melinde. Para além do romantismo que envolve a figura do Poeta, muito para além das figuras míticas que evoca e que tanto encantaram as minhas primeiras leituras, Camões é para mim: “O Príncipe dos Poetas”
ELITA GUERREIRO 2 /12 / 2011
domingo, 27 de novembro de 2011
SOBRE O "Velho do Restelo" 1 (Os Lusíadas, IV, 94-104)
(in http://www.dightonrock.com/camoes_o_maior_emigrante_de_todo.htm notar o "Velho do Restelo" no canto inferior esquerdo, identificado com uma bolinha branca))
Na praia do Restelo, no momento em que a os navios de Vasco da Gama estão prestes a largar de Lisboa para a grande viagem, um velho profere um discurso poderoso contra os empreendimentos marítimos de Portugal, que ele considera uma ofensa aos princípios cristãos, uma vez que a busca de fama e glória em terras distantes se pode vir a revelar desastrosa.
domingo, 13 de novembro de 2011
"VELHO DO RESTELO" (Os Lusíadas, Luís de Camões)
PARTIDA DAS NAUS PARA A ÍNDIA E EPISÓDIO DO VELHO DO RESTELO
(Luís de Camões, Os Lusíadas, IV, 84-104)
94
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
95
- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
96
- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
97
- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
98
- "Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:
99
- "Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:
100
- "Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
101
- "Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?
102
- "Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.
103
- "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!
104
- "Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!"(Luís de Camões, Os Lusíadas, IV, 84-104)
VALE A PENA VER/LER/CONSULTAR:
http://www.historia.com.pt/lusiadas/Lusiadas.htm (edição on-line de Os Lusíadas, comentada por João Manuel Mimoso e ilustrada por Carlos Alberto Santos)
http://www.flickr.com/photos/emoitas/2290123010/in/photostream/ (excelente foto e descrição histórica abreviada da Viagem de vasco da Gama para a Índia)
(Luís de Camões, Os Lusíadas, IV, 84-104)
83
"Foram de Emanuel remunerados,
Porque com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Para quantos trabalhos sucedessem.
Assim foram os Mínias ajuntados,
Para que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica Nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
84
"E já no porto da ínclita Ulisseia
C'um alvoroço nobre, e é um desejo,
(Onde o licor mistura e branca areia
Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte
Estão para seguir-me a toda parte.
85
"Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Para buscar do inundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeam os aéreos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.
86
"Depois de aparelhados desta sorte
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhamos a alma para a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Para o sumo Poder que a etérea corte
Sustenta só coa vista veneranda,
Imploramos favor que nos guiasse,
E que nossos começos aspirasse.
87
"Partimo-nos assim do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, para exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.
88
"A gente da cidade aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E nós coa virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene a Deus orando,
Para os batéis viemos caminhando.
89
"Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam;
As mulheres c'um choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam;
Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperarão, e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.
90
"Qual vai dizendo: -" Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério, e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Por que me deixas, mísera e mesquinha?
Por que de mim te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!" -
91
"Qual em cabelo: -"Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Por que is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha, e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento
Quereis que com as velas leve o vento?" -
92
"Nestas e outras palavras que diziam
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.
93
"Nós outros sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
"Foram de Emanuel remunerados,
Porque com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Para quantos trabalhos sucedessem.
Assim foram os Mínias ajuntados,
Para que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica Nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
84
"E já no porto da ínclita Ulisseia
C'um alvoroço nobre, e é um desejo,
(Onde o licor mistura e branca areia
Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte
Estão para seguir-me a toda parte.
85
"Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Para buscar do inundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeam os aéreos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.
86
"Depois de aparelhados desta sorte
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhamos a alma para a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Para o sumo Poder que a etérea corte
Sustenta só coa vista veneranda,
Imploramos favor que nos guiasse,
E que nossos começos aspirasse.
87
"Partimo-nos assim do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, para exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.
88
"A gente da cidade aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E nós coa virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene a Deus orando,
Para os batéis viemos caminhando.
89
"Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam;
As mulheres c'um choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam;
Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperarão, e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.
90
"Qual vai dizendo: -" Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério, e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Por que me deixas, mísera e mesquinha?
Por que de mim te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!" -
91
"Qual em cabelo: -"Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Por que is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha, e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento
Quereis que com as velas leve o vento?" -
92
"Nestas e outras palavras que diziam
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.
93
"Nós outros sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
94
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
95
- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
96
- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
97
- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
98
- "Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:
99
- "Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:
100
- "Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
101
- "Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?
102
- "Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.
103
- "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!
104
- "Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!"
VALE A PENA VER/LER/CONSULTAR:
http://www.historia.com.pt/lusiadas/Lusiadas.htm (edição on-line de Os Lusíadas, comentada por João Manuel Mimoso e ilustrada por Carlos Alberto Santos)
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