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domingo, 2 de junho de 2019

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Elita Guerreiro)



“ A BALANÇA DA JUSTIÇA”
SOBRE O SERMÃO DO BOM LADRÃO

Chegámos à bonita cidade de Viseu, quando o relógio duma igreja dava 9 horas. Os autocarros seguiram para o recinto que lhes estava destinado. Em grupos, procurámos onde tomar o pequeno-almoço.
Acolheu-nos um cafezinho pequeno, onde dois simpáticos funcionários
nos atenderam. Alguns membros do grupo conversavam animadamente: comentavam a prisão de um antigo governante, acusado de lesar o País em muitos milhares de euros. O dono do estabelecimento, que por trás do balcão vigiava a actuação de quem nos servia, foi ligar a televisão. Assistimos ao vivo à prisão do tal senhor e das declarações dos muitos advogados contratados para o defender.

- Agora sim, acredito na igualdade!- comentou com ar feliz o dono do estabelecimento.

Na nossa mesa, foram cruzados olhares cépticos, duvidosos. Do outro lado da rua, o sino da pequena igreja chamava os fiéis para a missa.
Cada um pagou a sua conta e alguns de nós já se encaminhavam para a igreja, quando reparámos num rapazola que, saído do café, corria como se o mundo acabasse naquele momento! Tão cego ia na sua correria, que foi embater no polícia que vigiava aquela zona. Das mãos caiu algo que o agente apanhou, segurando o rapaz com força. Ao mesmo tempo, um dos nossos companheiros deu por falta da carteira.
Já o agente entrava no estabelecimento com o delinquente pelo braço, perguntando ironicamente:
- Alguém ofereceu esta carteira a este senhor?
- É a minha carteira! -  disse alguém, nervosamente.
- Identifique-se! - respondeu o polícia.
- A minha identificação está na sua mão, senhor agente! Só lhe posso dizer, com o testemunho das pessoas presentes, que sou esse que está na foto.
Um pouco encabulado, o polícia abriu a carteira. Perfilou-se então numa continência respeitosa, porque aquela identidade pertencia a um oficial da Marinha.

- Que faço a isto?
“Isto” era um puto que não teria mais que uns 12 ou 13 anos…
Ao que o outro respondeu:
- Deixe-o ir, só quero a carteira, mais nada. 
Nova continência e o polícia abandonou o café.

No silêncio que se instalou, quase ouvia o meu pensamento! As muitas perguntas que a mim própria fazia iam passando em rodapé na lembrança do que a vida me tem ensinado. Uma pergunta se impunha: Como classificaria o sábio Padre António Vieira esta situação? De um lado, um antigo estadista rodeado de advogados prontos a defendê-lo, a arrancá-lo das garras da lei que, como governante, deveria ser o primeiro a cumprir e do outro, um puto, que deveria estar na escola, aprendendo o respeito pelo seu semelhante! Quem o defenderá, quando o vício ou a necessidade o levarem à barra do tribunal? Qual será a sentença aplicada? Que motivo leva um jovem, quase uma criança, a roubar?
 Este pequeno ladrão, que roubou um homem, não é o pior dos males que afligem a humanidade. Citando Ezequiel, Profeta do Antigo Testamento, o Padre António Vieira recorda que há só uma lei que nos coloca, pequenos e grandes, no mesmo pé de igualdade. Essa é a lei de Deus. Perante Ele, seremos julgados cada um pelos actos que cometeu.
Só Deus sabe qual é “O Bom ou o Mau Ladrão”! Aí sim, poderemos dizer com razão, como disse o dono do café:

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Mercedes Ferrari)

Os bons, os maus
E os piores ladrões

Sempre existiram
E prosperaram
Falo dos maus
E dos piores
foi dada a prova
na nossa história
na roubalheira
são os melhores

os evangelhos
falaram de uns
ao fio do tempo
viram-se alguns
mas hoje em dia
é bem pior
porque a receita
é bem maior

quanto aos coitados
que furtam peras
não perdoados
da falta grave
da pera só
esses por certo
que vão directo
pró xilindró

assim foi sempre
lá diz o padre
nos seus sermões
qual advogado
lançando chispas
farpas e gritos
para a vergonha
desses ladrões

meu bom Vieira
tu lá sabias
que os pecadores
grandes ladrões
não eram pobres
nem ociosos
eram os fortes
ricos e nobres

e assim vai o mundo
na onda má
que todos querem
já, já, surfar
porque amanhã
já não há tempo
esta maré
há que apanhar

meu bom Vieira
muito disseste
infelizmente
ninguém teve dó
e os que ouviram
e perceberam
mandaram-te a ti

pró xilindró …

Mercedes Ferrari, 2019



Os Sermões do Padre António Vieira 
A visão crítica  de um sociólogo “avant la lettre”

I

Num tempo em que a Sociologia, como ciência de estudo que tenta explicar a vida

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Fernando Amaral)

I

OS ETERNOS “BONS” LADRÕES

No âmbito da aula de Literatura, iniciámos o estudo da obra do Padre António Vieira, mais concretamente, o estudo do “Sermão do Bom Ladrão”. Como sabemos, o Padre António Vieira viveu no século XVII, numa altura em que Portugal se encontrava sob o domínio filipino.
A sua vida dividiu-se entre Portugal e o Brasil. Religioso da Companhia de Jesus, escritor, orador e político, António Vieira nasceu em Lisboa e faleceu no Brasil. Ainda criança foi para o Brasil, acompanhando o seu pai que se instalou na Baia. Aí cresceu, estudou e ingressou na Companhia de Jesus. Após a restauração da independência portuguesa, Vieira regressou a Portugal tendo conquistado a amizade e a confiança do rei D. João IV o qual, inicialmente, lhe confiou tarefas diplomáticas no estrangeiro e, mais tarde, o nomeou pregador régio.
Entretanto entrou em conflito com o Santo Ofício. Talvez por isso, regressou ao Brasil onde permaneceu cerca de 8 anos. Durante este período, a sua atividade mais relevante foi a defesa da liberdade dos índios.
Em 1654 voltou de novo a Portugal. Nessa viagem, de regresso, sobreviveu a um naufrágio próximo dos Açores. De novo em Portugal, António Vieira tornou-se confessor da “regente” D. Luísa de Gusmão, defendeu o sebastianismo e entrou de novo em conflito com a inquisição, tendo sido condenado. Esteve em Roma durante alguns anos, junto da Santa Sé, e aí garantiu a anulação das suas penas e também a suspensão da atividade da Inquisição em Portugal contra si, durante cerca de sete anos. Em seguida retornou, pela última vez, ao Brasil, onde faleceu a 18 de julho de 1697, com 89 anos.
O “Sermão do Bom Ladrão” foi escrito em 1655. O Padre António Vieira proferiu este sermão na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante D. João IV e a sua corte, onde estavam os maiores dignitários do reino, juízes, ministros e conselheiros. Em todo o sermão recorre à retórica barroca em uso na época, plena de metáforas e analogias.
No início do sermão, Vieira vincou ser a Capela Real o local mais apropriado para o seu discurso. Isto porque iria falar de assuntos de grande interesse para sua Majestade e para toda a corte. Depois adverte o poder, denunciando a desproporcionalidade das punições, as riquezas ilícitas, as gestões fraudulentas e o comportamento imoral da nobreza da época.
Ainda no primeiro capítulo, o Padre António Vieira caracteriza as figuras do bom e do mau ladrão e “baliza”, utilizando o estilo acima mencionado, o que a igreja considerava serem as condições para a salvação. Nesse sentido pode ler-se no capítulo III, página 13, “Vejam agora, de caminho, os que roubaram na vida, e nem na vida, nem na morte restituíram, antes na morte testaram de muitos bens e deixaram grossas heranças a seus sucessores, vejam onde irão ou terão ido suas almas, e se podiam salvar”. Sobre Dimas, o ladrão pobre e Zaqueu, o ladrão rico, escreve António Vieira no mesmo capítulo primeiro: “Porque Dimas era ladrão pobre, e não tinha como restituir o que roubara”; “Zaqueu era ladrão rico e tinha muito com que restituir”. E mais à frente, “E ainda que ele o não dissera, o estado de um e outro ladrão o declarava assaz. Porquê? Porque Dimas era ladrão condenado, e se ele fora rico, claro está que não havia de chegar à forca; porem Zaqueu era ladrão tolerado, e a sua mesma riqueza era a imunidade que tinha para roubar sem castigo, e ainda sem culpa.”
Concluímos que, de acordo com o Padre António Vieira, a riqueza, ainda que conseguida de forma ilícita, garantia tolerância e imunidade ao homem rico. Ainda noutra fase do sermão, capítulo l, página 9, António Vieira escreve “Bem quisera eu que o que determino pregar chegara a todos os reis.”
Aqui António Vieira aponta o dedo aos reis e aos poderosos, quando afirma estarem eles, reis e poderosos, necessitados das suas pregações.
Isto porque, ainda na mesma página, António Vieira coloca reis e ladrões ao mesmo nível, quando escreve: “Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis”.
Como já dissemos, o Padre António Vieira denuncia, no seu sermão, os privilégios detidos pelos poderosos relativamente aos demais. E porque os poderosos sempre foram privilegiados, ao longo dos tempos até aos nossos dias, as denúncias do Padre António Vieira acabam por ser intemporais. Na verdade sempre existiram ladrões pobres e ladrões ricos e quase sempre os ladrões ricos conseguiram “passar pelos pingos da chuva”. Lembremo-nos daquele ditado popular que diz mais ou menos isto: “quando alguém se apodera de um pão, que não lhe pertence, é ladrão, quando alguém se apodera de grandes quantias em dinheiro, que não lhe pertencem, está a fazer um desvio”.
No passado, quantas igrejas e capelas terão sido construídas por ladrões ricos para que obtivessem a salvação. Hoje, no nosso tempo, quantos ladrões ricos (muitos deles agraciados pelo poder instituído) se apoderaram indevidamente de milhões de euros pertencentes ao erário público? Sabemos que bastantes.
Como resultado deste desiderato, temos o seguinte panorama: muitos que “desviaram” estão em liberdade e, graças aos paraísos fiscais, mantêm mais ou menos intacto o produto do roubo. Os que foram roubados ficaram sem o seu dinheiro. Os restantes, ou seja, os contribuintes em geral, tiveram que pagar as imparidades provocadas nas diferentes instituições.
Poderá muito bem acontecer que estes ladrões ricos, agora oficialmente pobres, paguem um “altar de uma igreja” ou mesmo uma “igreja” e, de seguida, quem sabe, obtenham a salvação.
Assim, detentores do poder, homens ricos e também o próprio clero sempre estiveram envolvidos, ao longo do tempo, em tarefas pouco transparentes que conduziram à acumulação de riqueza por uns e, consequentemente, ao alargamento de bolsas de pobreza. Tudo isto conduz à possibilidade de existirem condições para que alguns comprem imunidades, favores e também a salvação concedida, em nome de Deus, pelos seus representantes na terra.
E no futuro? Quais as expectativas?
No futuro próximo, tudo leva a crer que a saga continua, aqui e ali, dificultada por reações, mais ou menos violentas, protagonizadas por grupos que se consideram explorados.
No futuro mais distante, por via da confluência das tecnologias da informação com a biotecnologia, é bem provável que as elites económicas, detentoras da riqueza, não mais necessitem de explorar o povo. Afinal, quando este já não for necessário, quando as máquinas o substituírem com sucesso, resta esquecê-lo, porque irrelevante para os seus interesses…

Dezembro 2018                                            
Fernando Amaral


OS ETERNOS “BONS” LADRÕES - VERSÃO II

No âmbito da aula de Literatura, iniciámos o estudo da obra do Padre António Vieira, mais concretamente, o estudo do “Sermão do Bom Ladrão”.
Começámos pela leitura dos primeiros três capítulos, onde o Padre António Vieira

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Ana Gaio)



Sermão do Bom Ladrão

Frases com peso

Capitulo I
“Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis, e mais ainda aos estrangeiros que aos nossos.”
“Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis.”

Capitulo III
De modo que, enquanto um homem era seu, e possuidor da sua liberdade, posto que não tivesse outra coisa, até que não vendesse a própria pessoa, e restituísse o que podia com o preço de si mesmo, não o julgava a lei por impossibilitado à restituição, nem o desobrigava dela. Que uma tal lei fosse justa não se pode duvidar, porque era lei de Deus,”
“Porque Dimas era ladrão condenado, e se ele fora rico, claro está que não havia de chegar à forca; porém Zaqueu era ladrão tolerado, e a sua mesma riqueza era a imunidade que tinha para roubar sem castigo”
“A salvação não pode entrar sem se perdoar o pecado, e o pecado não se pode perdoar sem se restituir o roubado”

Capitulo IV
“os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos”
“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres”
“Se o Rei de Macedónia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome (Séneca)”
“o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina”
“Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam, que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar”

Capitulo V
“Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam”

Capitulo VIII
Os vários tempos verbais do verbo furtar
“E se alguém duvida qual seja maior, note a diferença de uns a outros. O pirata do mar não rouba aos da sua república: os da terra roubam os vassalos do mesmo rei, em cujas mãos juraram homenagem; do corsário do mar posso me defender: aos da terra não posso resistir; do corsário do mar posso fugir: dos da terra não me posso esconder; o corsário do mar depende dos ventos; os da terra sempre têm por si a monção; enfim, o corsário do mar pode o que pode: os da terra podem o que querem, e por isso nenhuma presa lhes escapa. Se houvesse um ladrão omnipotente, que vos parece que faria a cobiça junta com a omnipotência? Pois isso é o que fazem estes corsários”

Capitulo IX
“...nem será rico, por mais herdades que tenha, quem não tiver cuidado, e grande cuidado, de não consentir que lhas governem ladrões”

Capitulo X
“O sujeito em que se fez esta execução, chama-lhe o texto villico: logo, em pessoas vis, ou de inferior condição, será bem que se executem estes e semelhantes rigores, e não em outras de diferente suposição, com as quais, por sua qualidade e outras dependências, é lícito e conveniente que os reis dissimulem.”
“...da vida de Adão dependia a conservação e propagação do mundo, e quando as pessoas são de tanta importância, e tão necessárias ao bem público, justo é que, ainda que mereçam a morte, se lhes permita e conceda a vida”

Capitulo XI
“...porque falava de um rei prudente e justo, e os que têm estas qualidades — como devem ter, sob pena de não serem reis — nem admitem em seu serviço, nem fiam a sua fazenda a sujeitos que lha possam roubar”
“Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. — E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendem, e são, finalmente, seus companheiros, porque os

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Carlos Nunes)


Sobre o "Sermão do Bom Ladrão"- Editorial Nova Ática"

"Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao Inferno sem levar consigo os Reis". Isto é o que hei - de Pregar. Ave Maria." Cap. I

No capítulo II, o Padre A. Vieira evoca Cristo na cruz, e ao aludir aos reis,  parece querer alertar o rei D. João IV para aqueles que o rodeiam na governação (ladrões),  aproveitando ao mesmo tempo  para condenar o "silêncio e desatenção" de alguns membros do clero ("pregadores"), na "esperança" de que o sermão sirva para que os vários ministros presentes possam com consciência , no futuro, melhor ajudar o Rei a governar.

Todo o capítulo XIII me deu que pensar, principalmente esta parte:
"Dos governadores que mandava a diversas províncias o Imperador Maximino, se dizia com galante e bem apropriada semelhança, que eram "esponjas"."

Que bem se aplica esta palavra "esponjas" aos dias de hoje!!!...

Carlos Nunes, abril 2019

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão, Padre António Vieira (por Adalberta Marques)


A Intemporalidade das palavras

Dinamizadoras, inspiradoras... castradoras, promovedoras de paz, as palavras podem ter conotação diferente para quem as oiça: cada um dar-lhes-á a sua.
Qualquer vento as pode levar, no entanto outras permanecem actuais através dos séculos, tais como as do padre António Vieira, segundo Fernando Pessoa, «Imperador da língua portuguesa». E permanecem.  Após séculos. 
Segue breve reflexão sobre o "Sermão do bom Ladrão", pregado na sexta-feira santa de 1655, na então Igreja da Misericórdia de Lisboa, hoje Igreja da Conceição Velha:
- «Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis». Zaqueu e Dimas, bom e mau ladrão, nenhum poderia ir ao paraíso. O bom ladrão porque tinha para restituir e não o fazia, o mau ladrão porque não tinha para restituir, não era baptizado e apenas o seu sangue o podia redimir.
Os maus ladrões hesitam em roubar para mitigar a fome dos seus. Não restituem! Já roubaram porque não tinham, logo pagam com a sua liberdade…
Os outros, não! Os bons ladrões roubam impunemente ,não restituem e ainda que o fizessem não seriam de considerar as suas restituições. Para além delas, já estariam o desespero e danos morais a quantos os causaram. Pregasse hoje o Padre António Vieira e só teria que alterar algumas das palavras: não seriam ladrões, mas desviadores de fundos; os fundos seriam destinados aos sacos. Um saco de qualquer cor, poderia ser qualquer uma desviada do arco - íris. Não haveria apenas um paraíso onde estava Cristo e os dois ladrões, mas vários paraísos para o percurso dos sacos…
«A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus que os fez maiores que os outros e é maior que eles»


Adalberta Marques

sábado, 1 de junho de 2019

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Carmo Bairrada)



««PADRE ANTÓNIO VIEIRA»»
(1608 – 1697)

 PARTE I

a) - Quem foi Esta FIGURA?

O percurso de vida desta figura maior da Igreja Católica e das letras portuguesas não foi fácil. Atravessou a maior parte da sua vida ao longo de quase todo o Séc. XVII, entre Portugal e o Brasil que, à época, era uma colónia portuguesa.

Nasce em Lisboa, em 06/02/1608 na freguesia da Sé e parte com a família para o Brasil. Aos 6 anos de idade foi estudar num colégio jesuíta e aos quinze anos ouviu pela primeira vez a pregação de um sermão sobre os horrores do Inferno, que o deixou muito perturbado.

Aos dezanove anos, já leccionava retórica. Mais tarde decidiu entrar para o seminário. Nos finais de 1634 foi ordenado Jesuíta.

Rapidamente deu nas vistas com os sermões que escrevia e depois pregava. Os espaços onde ele ia estavam sempre cheios de gente  para o escutar.

Os  Sermões eram escritos com base em princípios filosóficos, o “conceito predicável”, dizendo que  “só se ocupava de assuntos religiosos.”

Não foi bem assim, como se veio a constatar, porque além de ser filósofo, foi padre, professor, prosador de uma retórica exímia, político, diplomata, e foi também um homem que sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos.

Lutou fortemente pelos “Direitos Humanos” dos Índios, dos Negros e dos Judeus convertidos chamados cristãos-novos, que na altura eram perseguidos ferozmente pela Inquisição.

O Pe. António Vieira, nos seus Sermões, continuava a chamar a atenção para aqueles temas e para a corrupção instalada, a nível da Administração local e também para a forma como os escravos eram tratados.

Foram todos estes temas “fracturantes”, aliados à sua defesa do Quinto Império que, posteriormente, o levariam a ser detido pela Inquisição, que o julgou e condenou a dois anos de prisão.

Passado algum tempo, o Pe. António Vieira escreveu da prisão a influentes Senhores: ao Papa e a D. João IV, seu amigo pessoal, no sentido de lhes pedir auxílio e apoio para as suas causas, conseguindo assim sair debaixo do jugo do Santo Ofício.

Foi absolvido, viajou directamente para Roma e em seguida para a Holanda, a fim de discutir o modo como eram tratados os escravos das propriedades dos holandeses estabelecidos em terras do Brasil, à época colónia portuguesa.

Por essa altura, em Lisboa, a vida não estava fácil. A Revolução de 1640 que pusera fim a sessenta anos de domínio Espanhol Filipino e trouxera a Portugal a autonomia e a Independência, não fora de todo  suficiente.

B) – “O BARROCO” - A MUDANÇA RADICAL

Perto do final do Séc. XVI, termina o período Renascentista, que foi um tempo de renovação científica, literária e artística, escorado nos modelos da Antiguidade Clássica.

Já nos finais do Séc. XVI e início do Séc. XVII, começa um novo período a que se deu o nome de Barroco  e que revolucionou o estilo estético das artes plásticas e da literatura até meados do Séc. XVIII. É oposto ao classicismo, donde provém, contrastando pela pujança e formas dominadas pela extravagância.

Com regras muito próprias, o Barroco iria mudar, radicalmente, o modo de viver e pensar de toda a sociedade portuguesa.

Teve um papel preponderante em toda aquela época e, ao contrário do Renascimento, coloca o poder temporal e religioso acima da sociedade, criando grandes divisões e conflitos, quer políticos, quer religiosos. Sobretudo estes últimos, que dividiriam o homem entre o que era  “A Vida Terrena” e “A Vida Divina.”

Se a vida terrena sofreu grandes mudanças no seu dia- a- dia, o mesmo aconteceu nas artes e na literatura. Foram feitas obras grandiosas como: Palácios, Palacetes, Igrejas, Capelas, Túmulos Funerários, Fontes, etc…, todos eles de um luxo desmesurado.

O interesse era mostrar “grandeza e poder absoluto”. A arte barroca tinha então o importante papel de: “Convencer/Conquistar e Impor Admiração”.

o Barroco na Literatura PORTUGUESA assentava em dois pilares: «O Cultismo e o Conceptismo»

O  CULTISMO
Caracterizava-se por utilizar o preciosismo do vocabulário e jogos de palavras para expressar ideias, valorizando a forma textual com o emprego de muitas figuras de estilo:
O CONCEPTISMO
Centrava-se no uso do “pensamento lógico”, sempre valorizado por um texto de retórica perfeita. O seu objetivo era convencer e instruir o leitor.


PARTE II
 o sermão do bom ladrão”
- E SUA ESTRUTURA -


Decorria o Ano de 1665 e o Pe. António Vieira, que vivia para lá do Atlântico, começou a ter muitas inquietações que lhe tiravam o próprio sossego. O que via à sua volta não podia deixar de ser transmitido ao Rei e às mais altas instâncias do poder.

Para o efeito começou a escrever um sermão, ao qual deu o nome de “ Sermão do Bom Ladrão”- para que todos ouvissem e prestassem atenção ao que ele iria pregar, aquando da sua visita secreta a Lisboa.

Depois de uma grande tempestade nos Açores, aportou à Capital, e soube que a pregação seria feita na Igreja da Misericórdia, um lugar de piedade, e não na Capela Real onde por costume se tratavam os assuntos de estado, na presença do Rei, dos seus ministros e mandatários.

Entrou na Igreja e, num ímpeto quase profético, tomou o púlpito como sendo a sua tribuna política e social, começando com o Conceito Predicável ou Tema da Pregação:
           
INTRÓITO (1ª. PARTE)
           
            “A pregação deste meu sermão que deveria ter sido feita
            na capela real, e não o foi, assenta na seguinte teoria:

            […] Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os             ladrões podem ir ao Inferno sem levarem consigo os reis.
           
            Isto é o que hei-de pregar. Ave Maria”
                                                                                               (Cap. I) 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

"Encarcerar a asa", Sebastião da Gama



(http://usazeitaoliteratura.blogspot.pt/2013/10/sebastiao-da-gama-percurso-ii-liberdade.html)

ENCARCERAR A ASA
Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há muita asa que não pensa; asas que não sintam é que não. 
Mas eu não preciso de símbolo para me negar a ver os pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno. Para que vivemos  no Mundo há tanto tempo se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com almaAté os das fábulas, quando calha… Ora pensem lá um bocadinho no «Leão Moribundo»… É leão mesmo ou é principalmente um leão. Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era dos homens que queriam falar! 
Asa encarcerada, não. Nem asa de pássaro, nem asa de grilo. Uma fê-la o Senhor e disse-lhe «Voa!» À outra:

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira

(púlpito de onde pregava o Padre António Vieira;
Igreja de S. Roque, 27.10.2012, foto de L. A.)

  Padre António Vieira, Sermão do Bom Ladrão

Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum: Hodie mecum eris in Paradiso (1).

I
Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos. Permite isto a misericórdia de Lisboa? Não.

sábado, 21 de agosto de 2010

O poder da PALAVRA (reflexões poéticas)

1. "O preço de uma pessoa vê-se na maneira como gosta de utilizar as palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um."
J. de Almada Negreiros, Poesia

2. As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.


Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

3.
95

Dá a terra lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dões
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos.
Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
Quando a deixava António por Glafira,
96
Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas , numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
97
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.
98
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.

99
As Musas agradeça o nosso Gama

o Muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.

100
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia.

Luís de Camões, Os Lusíadas, V
in http://umdiapormuitosebonsanos.blogspot.com/2009/11/dia-nacional-da-cultura-e-da-ciencia.html

4."Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. (...) Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. (...) Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum. O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum. (...)

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima


5. Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos tranportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes.

Alexandre O'Neill
(1924-1986)