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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Poema inédito, por Mercedes Ferrari

 Embriaguez

Impossível embriaguez

De um possível talvez

Que invades o pode ser

E contra a escuridão do não poder

Resplandeces...

Ressurreição da esperança

Última a desaparecer

 

Radiosa, enganas

Mentes e convences

Que pode o que não pode

Que é o que não é

Possível, impossível,

Que não podes prever

Se é possível ou não

Quem o pode dizer?

 

Mas embriagas, sim

Sereia encantadora

Canto que quero ouvir

Que do fundo da vaga

A minha mente enleia.


Já não sei discernir

O que é o impossível

 

Até que, sem o querer,

Aos meus olhos, amor,

Tudo seja possível…


M.F. 2002

domingo, 17 de outubro de 2021

Inédito, por Mercedes Ferrari

 SEGREDO

Andei por mares e por montanhas
Por bosques negros de meter medo
Galguei riachos, passei por pontes
Trilhei caminhos por entre montes
Nunca contei o meu segredo

Sem me cansar andei em estradas
Perdi-me em ruelas, atrás voltei 
Atravessei os oceanos
Corri sem tréguas, passaram anos 
O meu segredo nunca contei

Dos oceanos bebi as ondas
De verdes folhas dormi à sombra
Cabelo ao vento, sempre sem medo
Nunca contei o meu segredo

Agora é tarde 
Já o esqueci… nada me sobra

M.F. 10.10.19

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Conto inédito, Mercedes Ferrari

 

Memórias do Cabo Oeste 

*

Lá no meio do nada, está ela.

Mesmo se "nada" não existe, até porque ela está lá.

Está ela, mais as aves, e os insectos, e o arvoredo de todos os tamanhos e de todas as cores...

Numa casa, perdida na colina, entre montanha coberta de pinhais e o curto vale, ao longe o mar, janelas abertas nos quatro quadrantes para uma visão paradisíaca da natureza, e a brisa, para um respiro fundo do ar...

...é lá que ela mora.

Mora… não mora. Está lá como se estivesse de férias; alugou ali porque o capricho assim mandou… e a recordação!

 

Sozinha? Nunca está sozinha. E para que serviriam os livros, se não fora para fazerem companhia? E de que valeriam o chilrear dos passarinhos, as conversas dos gatos, o latido longínquo de um canito, se não fossem uma companhia constante?

Quem está só e se sente sozinho não tem ouvidos e não vê para além do limiar da sua porta, para além do limiar da própria solidão.

 

Uma curta estradinha de terra batida separa a casa do mundo. Por ela se chega ao caminho asfaltado da civilização.

Caminho que, jovem, percorria a pé, para ir às amoras ou aos medronhos, nas encostas da serra, amarinhar pelas veredas - por vezes quase de gatas, de tão íngreme era a encosta - para chegar ao forte abandonado, lá em cima, que chamavam a Peninha, ou simplesmente para ir uns poucos quilómetros mais abaixo, à vila mais próxima encontrar outras juventudes no único café, ou para descer à praia.

Mais tarde a percorreria de automóvel, e agora... já mal atravessava aquele espaço que, criança, chamara "o caminhito".

Por enquanto, não precisava de mais nada: só de estar ali.

 

Vizinhos, poucos e longínquos: um galo cantando e o cacarejar de galinhas e patos, denunciavam a presença de alguém na pequeníssima aldeia de cinco ou seis casas, mas os arbustos altos e os penedos escondiam felizmente essa vizinhança, cuja visão só perturbaria a harmonia do lugar…

 

Um citadino original comprara o moinho que se via da varanda, mas era longe. Não incomodava... aliás desconfiava que ninguém lá morava, era só "para inglês ver": os citadinos tinham dessas bizarrias!

 

Que bem que estava, pensava ela, estendida na varanda com as mesinhas à volta carregadas de livros, de cadernos, de binóculos, de lápis e canetas, relógios e cigarros, cinzeiros e bomboneiras com frutos secos, a chávena do café na mão e os olhos semicerrados esticados na direcção do mar...

"que bem que estou", pensava !

** 

Foi nesta aldeia que passou muitas temporadas quando era menina.

Muitos eram os que alugavam as casas da aldeia para virem “mudar de ares” e sacudir a poeira da cidade no meio da natureza - bastante selvagem na altura.

Não havia electricidade, e água, só no poço!

Os candeeiros a petróleo iluminavam os serões que, na verdade, depois de tanto brincar, correr na natureza e respirar a forte brisa do oceano, não duravam quase nada: depois de jantar, a cabeça já pedia cama!

 

E era nesta aldeia, numa casinha alugada ao mês pelo tio Manel que, já adolescente, passava fins de semana e dias de férias, no tempo do liceu.

 

Dias despreocupados, que passavam lentos e límpidos, a bruma matinal e fresca, as tardes solarengas e os serões quase inexistentes…

 

Às vezes, no verão, um velhote vinha com material cinematográfico e projectava um filme num lençol sujo pendurado na parede da minúscula (e única) mercearia da aldeia: era uma festa e todos os moradores se juntavam no que servia de praça central.

 

E foi nesta aldeia que uma outra família alugou uma casa mesmo ao lado da casinha do tio Manel.

Cinco filhos; e o mais velho apareceu como um anjo de luz!

… Uma estátua grega. Na altura, ela não sabia nada das estátuas gregas, mas algo lhe dizia que aquela aparição tinha muito a ver com arte! E como tinha, sem o saber, uma alma de artista, não conseguia tirar os olhos daquela obra…

 

E foi assim que o interesse nas curtas visitas à aldeia cresceu a olhos vistos.

E foi assim que se deslumbraram!

Porque ela também era uma estátua.

 

Aos dezasseis anos,  o primeiro amor é uma fonte de descobertas sem fim!

E havia muito a descobrir.

 

Os passeios à Peninha tinham agora outro encanto, a apanha das amoras era uma delícia triplicada e os medronhos muito mais fáceis de recuperar com os rapazes a subirem às árvores mais altas e a atirarem-nos para as saias que as meninas levantavam para os receber!

E os risos eram mais alegres e mais ruidosos; e voltavam para casa um pouco ébrios de medronhos maduros, de ar puro e de uma sensação extraordinária de liberdade.

Adolescentes felizes…

 

Passava o verão, voltavam as aulas, mas agora havia encontros na cidade. Os primeiros encontros, meio clandestinos ao princípio, que se tornaram tão habituais que deixaram de o ser.

E com o regresso da primavera,  lá iam todos para a aldeia e recomeçavam as caminhadas, os piqueniques na serra preparados pela mãe dos cinco e pela tia, e as descidas terrivelmente perigosas à praia da Ursa - desconhecida na altura - por carreiros de cabras que seguiam a encosta com o precipício à direita, os olhos postos no chão para não resvalar …

 

Na vila, o café onde as famílias se encontravam, as festas populares, a feira no adro, tudo era pretexto para andar juntos e, como quem não quer a coisa, para namorar.

 

Com o passar dos anos e os cursos acabados, chegou o tempo de trabalhar

e agora era à porta do escritório que ele a vinha buscar.  

 

Iam ao cinema, ao café, nos fins-de-semana de verão encontravam-se na praia ou na piscina e agora, quando a levava a casa, entrava e ficava por ali um momento, conversava com a avó, viam qualquer coisa na televisão e depois voltava para casa.

 

Os encontros eram quase diários e era implícito que tinham o futuro “marcado”: iriam certamente casar!

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Em tempo de pandemia, por Mercedes Ferrari

 Misérias de Paris

 Cada vez que atravesso a rua naquela esquina, vejo-os.

 Enrolados em mantas ou edredons, no inverno, à beira da “boca” de saída de ar de onde se exala algum calor que vem das profundezas infernais, só protegidos por um “telhado” proporcionado pelo metro aéreo, ficam ali, sentados em cima de caixas de cartão que abrem para fazer tapetes, ou no verão, na mesma posição … só um pouco mais despidos.

Um pouco desgrenhados, um pouco sujos ma non troppo, rodeados de sacos de plástico onde provavelmente guardam igualmente bens pessoais e comida, e aquele ar desprendido, ausente, os olhos cravados num horizonte que só eles conhecem, como se não estivessem ali nem vissem as pessoas que passam obrigatoriamente para o trabalho ou para as compras – e que também evitam cuidadosamente olhar para eles...

No inverno, à noite, abrem umas tendas de campismo e enfiam-se lá dentro, não sem terem bebido uns copos o que muitas vezes degenera em zaragatas e palavrões …

Há ali mulheres e homens. Também uma ou duas crianças.

Durante o dia, uma vez as tendas dobradas, há duas situações:

- ou desaparecem deixando apenas um embrulho ou outro no seu local de eleição ou mesmo nada, e nesses casos eu, perplexa, pergunto-me “onde terão ido ? Será que têm um trabalho e carecem apenas de morada ? Ou vão simplesmente deambular pela cidade a pedir esmola ? Ou irão para centros de dia onde lhes fornecem comida e - talvez - casa de banho para as abluções ?”

-  ou, às vezes, algumas mulheres permanecem sentadas nos seus tapetes de papelão, muito quietas, aparentemente não fazendo nada ou remexendo nos seus sacos de plástico, e falando baixinho entre elas… nunca estão sozinhas.

 Sim, é só à noite que o tom sobe! Por vezes muito alto…

Eu oiço-os, moro mesmo ali por cima da esquina e, mesmo quando não é uma verdadeira zaragata falam, riem, bulham muito alto e pela madrugada adentro, sem se preocuparem muito - ou nada - com os cidadãos comuns que terão que se levantar cedo para trabalhar.

E passam os anos.

E continuam lá !

Mercedes Ferrari, outubro/20 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

DIVOC (textos de férias anti-covid)

TÁBEM  e  PODESERQUE   encontram-se de novo…

- Olá, PODESERQUE,  já passei por aqui várias vezes e não te tenho visto. Algum problema?
- Não, mas como sabes estamos confinados, e tu também, TÁBEM!
- Com  finados? Já morreu alguém por aqui?
- Confinados, isto é, em isolamento por causa do corona vírus.
- … do cabronavírus?  Eh, eh, eh …
- Podes dizer  COVID19, que para ti é mais fácil, TÁBEM.
- E o teu cão? Também não o tenho visto, mas parece que agora está na cave…
- Na cave? Eu nem sequer tenho cave…
- Não tens ? Então o que quer dizer essa placa aí no muro, PODESERQUE?
- CAVE CANEM?  Mas isto é latim ,TÁBEM, e quer dizer cavem, que vem aí o  cão!
- E da tua dor nas costas, PODESERQUE, como vais?
- Bem melhor, comecei agora a tomar uns comprimidos…
- Que comprimidos são,  PODESERQUE?
- São  PARECETÁMOLE,  dois por dia.
- Olha,  PODESERQUE, a julgar pelo nome, mal não devem fazer…

ZÉ BAIRRADA
MAIO/2020 

O encontro extraordinário
Foi  numa tarde depois do lanche, que era praxe em casa da avó.

A menina saiu de casa para passear no bosque. Levava um training azul e fitinhas da
mesma cor nas pontas das tranças do seu cabelo loiro veneziano e, ao andar, parecia dançar, graciosa e ligeira.

Todos os dias passeava por ali e conhecia os trilhos como ninguém: até a avó lhe perguntava por vezes qual o caminho que aconselhava para chegar depressa à aldeia do lado poente, ou ao burgo situado a sul.
Quando chovia, a menina ficava à janela a ver os pingos que se poisavam nos vidros e iam descendo vagarosamente e, misturando-se uns aos outros, iam formando grandes gotas que acabavam em rios resvalando pelo poial. Por vezes, abria uma fresta de janela para cheirar o perfume da terra.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Sobre "A Fada Oriana", Sophia de Mello Breyner Andresen

            E se a história acabasse mal?

Oriana foi tentada pela vaidade quando encontrou o peixe e esqueceu-se de todos os seus deveres para com os outros.
A consciência de Oriana, sentadinha no seu ombro esquerdo, alertou-a para a sua vaidade e a necessidade de voltar atrás e cumprir as suas promessas. Mas ninguém lhe restituía aquilo que havia perdido!
E um dia, ao ver o perigo ameaçar a sua amiga velhinha, esqueceu-se da sua condição e lançou-se no espaço como se ainda tivesse asas e varinha.
Mas a atenção da Rainha das Fadas Boas salvou-as!


Tal como Oriana, Narciso encantou-se consigo mesmo.
Vendo-se espelhado nas águas de um rio, julgou contemplar o mais belo rapaz do mundo e, apesar das suas tentativas para o apanhar, nunca o conseguiu.

Eco alertava-o mas ele nem a ouvia e manteve-se em contemplação sem comer nem beber.
E o poder divino do Deus dos Deuses castigou-o pela sua vaidade.

Ana Gaio
Janeiro 2020

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sobre "O Silêncio", Sophia de Mello Breyner


Um Grito 
Dentro de casa reinava a ordem, a harmonia, a satisfação do dever cumprido. Louça lavada, tudo nos lugares, arrumado e limpo. Não é segredo para ninguém o quão cansativas são as lides domésticas e quanto as costas se ressentem e as mãos ficam ásperas! Mas finda a faina, que bom é ver reflectido o brilho da luz na brancura dos azulejos da cozinha e admirar as sombras que se alongam nas dependências da casa e parecem dar vida aos objectos!
Joana fechou portas, apagou luzes e foi debruçar-se na janela, apreciando a noite serena, calma, silenciosa. Um momento mágico! Apenas uma brisa ligeira movimentava a rama dos cedros. Dentro dela, o silêncio! A contemplação dos astros e o silêncio davam-lhe a calma sensação de paz, de liberdade, de leveza de consciência. Fazia parte daquela magia, como se fosse o seu reino!
(Acho que há uma paragem no tempo, um momento, em que Deus como um verdadeiro ancião cansado, dormita um pouco… Satisfeito também ele, com o dever cumprido, delega no silêncio a tarefa de aquietar as almas, de serenar os espíritos.)
Foi nessa pausa doce e silenciosa, que Joana se envolveu. Nesse repouso de Deus e do Universo. De repente, a doçura daquela maravilhosa quietude foi quebrada… O sino da torre, a sirene de um barco no rio e um grito enorme, que salpicou de amargura o tranquilo silêncio da noite: uma mulher atirava ao silêncio a sua dor, como uma pedra atirada ao charco… Continuava, gritando… Ora como um triste lamento, ora como um uivo! O homem que a acompanhava tentava tirá-la de junto do muro do edifício da prisão ali existente. Enlaçava-lhe os ombros, pedindo-lhe ou talvez ordenando-lhe que se calasse.
Que papel desempenharia este edifício na dor da pobre mulher?
Qual seria o seu significado neste súbito quebrar de silêncio?
E porque escolheria semelhante local para expandir a sua dor?
O coração de Joana sofreu o horror da impotência…
Quem era, porque sofria, como ajudar?
(E Deus, cansado, dormia. Não escutou aquele grito desgarrado!)


Elita Guerreiro 23/10/2019

Partindo de poemas de Jorge de Sena

Partindo do poema Desencontro de J. de Sena:

[Desencontro
Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.
Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum']

Perturbação

Querer encontrar a paz é uma aposta
Onde procurar é letra morta
E ela não está nunca onde se está

Será então em vão que se procura ?
E se se encontra, ela nunca dura
Há sempre uma luz fria que nos cega
Um ruido fatalmente nos desperta
É um desencontro sem encontro certo
O simplesmente estar já a perturba
E a paz foge para bem longe

Para lá do onde não se está

M.F. 2.11.19

terça-feira, 18 de junho de 2019

Reflexões sobre a "História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a Voar", Luis Sepúlveda (por Mercedes Ferrari)


Nomes
Na obra de Luis Sepúlveda
“História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”
  
Por experiência, penso não me enganar ao pensar que os autores de obras literárias – romances, ensaios, poesias – não escolhem, em grande parte dos casos, os nomes dos seus personagens por mero capricho ou acaso.

Se nos dermos ao trabalho de reflectir sobre o assunto, depressa chegamos à conclusão de que o nome escolhido tem, muitas vezes, um significado para o autor.

No livro em apreço, o que nos aparece numa primeira abordagem, é a originalidade dos nomes com que Sepúlveda brindou os seus heróis: são gatos, são gaivotas, é um macaco, e chamam-se…

Mas comecemos por ordem.

Primeiro aparece uma gaivota, pertencente ao bando do Farol de Hamburgo, que tem a triste sina de caír na camada de petróleo de uma maré negra. O seu nome é Kengah.
Kengah é nome de um ser dinâmico, eficiente, rápido no apreciar e no decidir: essa é a explicação esotérica. Pelos vistos, é também um ser culto, já que se lembra, num último esforço para atingir terra, do mito de Ícaro e do facto de este ter perdido as asas por se ter derretido a cera com que colou as penas, e espera – ela também - que, ao voar o mais alto possível, o sol lhe derreta a horrível camada de alcatrão!
Será pela sua independência e coragem que “ganhou” esse nome ?

Em segundo lugar aparece um gato, que o autor qualifica de grande, preto e gordo e cujo nome é Zorbas
Ora Zorbas é um nome grego, e a Grécia é um país relativamente quente e solarengo: é sabido que os gatos gregos são pachorrentos e gordos, vivem à procura de sombra e encontram-se, às dezenas, nos restaurantes e tabernas. Em suma, os gatos gregos são uns “bon-vivants”: não é, pois, de admirar que tenha sido baptizado assim …

O encontro dos dois é o início do conto e o que daí decorre é fulcral, pois se trata de uma promessa solene do Zorbas à Kengah… que morre ali mesmo, pondo o ovo que é o objecto da promessa.

Em seguida vão aparecendo outros gatos, com nomes muito originais : temos 
Secretário...
Não há segredo : Secretário trata do expediente, é moço de recados e porteiro do restaurante italiano. À parte isso, não parece fazer grande coisa: é um gato um pouco apagado, mas a sua participação apesar de tudo é primordial: quem, senão ele iria buscar sardinhas para a gaivotinha?

 Colonello
O italiano Colonello que repete sempre “porca miséria” quando algo não está certo e que, como na hierarquia militar, é velhote e impõe respeito; assim sendo, o nome assenta-lhe como uma luva. Secretário também serve de guardião da sua paz e sossego, quando algum gato lhe vem miar à porta com pedidos ou exigências!

Sabetudo
É um personagem muito colorido! Vive no Bazar do Harry e, como o seu nome indica, é o leitor compulsivo da enciclopédia, onde encontra informações das mais heteróclitas que se possa imaginar e, eventualmente,  soluções para todos os problemas. A ele se dirigem os pedidos de socorro quando Zorbas, Colonello e Secretário não sabem como se choca um ovo, como se alimenta uma ave e… como se reconhece o sexo de uma gaivotinha !
Como sobre este ponto a enciclopédia é muda, decidem consultar quem de direito, isto é
Barlavento
Barlavento é o “lobo do mar” da gataria do porto e mascote da draga que limpa o Elba em Hamburgo e outros portos bem mais longínquos e que vive com os tripulantes a bordo! Tem o falar típico dos “homens” do mar e a experiência de muitos anos a frequentar os portos e os marinheiros.
Para o grupo empenhado na promessa a Kengah, pareceu o único que, sendo conhecedor de coisas marítimas, poderia desvendar o mistério do sexo da ave saída do ovinho da Kengah, e, tendo cumprido a sua parte, a pequena gaivota será baptizada de

Ditosa !
Ditosa, por ter tido a sorte de nascer rodeada de cuidados e carinhos de um  “colectivo” felino que lhe serviu de família e, por fim,  uma gaivota que será um sucesso da promessa feita “in extremis” à sua mãe Kengah pelo Zorbas, apesar das dúvidas, dificuldades e situações estranhas pelas quais este último teve de passar.


E, enfim, como outros protagonistas, aparece o Poeta.
O poeta não tem nome, mas é um personagem importantíssimo no desfecho da história e no cumprimento da promessa, já que é ele que acompanha Zorbas e Ditosa ao cimo da torre da catedral, de onde a gaivotinha se lançará, finalmente, no seu primeiro vôo !

As ratazanas do porto também não têm nome, e ainda bem, porque são criaturas de triste reputação!

 E há um chimpanzé, que se chama Matias
Porquê Matias ?
Matias, nome de origem grega (outra vez? O autor terá uma predilecção por “coisas” e gentes gregas?) só me faz pensar num apóstolo, Mateus, nome correspondente, mas não acredito que este fosse tão rebarbativo, antipático e… beberrão, como o dito chimpanzé que nos descreve Sepúlveda…
Segundo “fontes credíveis”, talvez haja uma outra explicação: poderia ser o equivalente de uma expressão portuguesa que denominava os “tontos” da aldeia de Matias… 

Fica a dúvida, pode ser que encontremos posteriormente uma melhor explicação.

Mercedes Ferrari
13.4.2019

domingo, 2 de junho de 2019

Reflexões sobre o "Sermão do Bom Ladrão", Padre António Vieira (por Mercedes Ferrari)

Os bons, os maus
E os piores ladrões

Sempre existiram
E prosperaram
Falo dos maus
E dos piores
foi dada a prova
na nossa história
na roubalheira
são os melhores

os evangelhos
falaram de uns
ao fio do tempo
viram-se alguns
mas hoje em dia
é bem pior
porque a receita
é bem maior

quanto aos coitados
que furtam peras
não perdoados
da falta grave
da pera só
esses por certo
que vão directo
pró xilindró

assim foi sempre
lá diz o padre
nos seus sermões
qual advogado
lançando chispas
farpas e gritos
para a vergonha
desses ladrões

meu bom Vieira
tu lá sabias
que os pecadores
grandes ladrões
não eram pobres
nem ociosos
eram os fortes
ricos e nobres

e assim vai o mundo
na onda má
que todos querem
já, já, surfar
porque amanhã
já não há tempo
esta maré
há que apanhar

meu bom Vieira
muito disseste
infelizmente
ninguém teve dó
e os que ouviram
e perceberam
mandaram-te a ti

pró xilindró …

Mercedes Ferrari, 2019



Os Sermões do Padre António Vieira 
A visão crítica  de um sociólogo “avant la lettre”

I

Num tempo em que a Sociologia, como ciência de estudo que tenta explicar a vida

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Inéditos, poesia (Mercedes Ferrari)


Coração de Cristal

Partiste-me o coração
Quando te portaste mal
Julgava que era de pedra
Afinal era cristal

Não vira eu, distraída
Que o tinhas na tua mão
Sacudiste-o, apertaste-o
Partiste-me o coração

Dia e noite tanto amor
Que eu pensava pedra e cal
Desmoronou-se-me o mundo
Quando te portaste mal

E tão forte se abateu
Que dele já nada medra
Secou, partiu, acabou
Julgava que era de pedra

Pois tanto ele refulgia
Quais do sol raios no sal
Sem do diamante a dureza
Afinal era cristal

 Mercedes Ferrari

sábado, 16 de junho de 2018

Para uma análise do conto "Ramiro", in Bichos, Miguel Torga



“RAMIRO”

Se alguma vez a voz lhe saiu espontaneamente da  garganta, deve ter sido quando em criança disse as primeiras palavras, porque de há longo tempo a esta parte, ninguém lhe arrancava mais que um “Han”…
O silêncio melancólico das serras onde apascentava o seu rebanho quebrara-lhe a voz e a vontade de contactar com os seus semelhantes. Tal como os animais rastejantes ou não, que com ele conviviam no silêncio do Marão e com ele partilhavam não só o espaço, mas o mesmo mutismo, Ramiro via passar os dias e os anos, só, entre o céu e a terra.
Dir-se-ia que era desprovido de sentimentos, de sensibilidade! Ah!...
Mas não era essa a verdade. No coração do Ramiro, havia uma Rosa.
Rosa que era um espinho cravado no mais fundo do seu ser! Assobiar-lhe, como fazia com o seu rebanho, não resultaria, ele sabia isso. Dentro de si, o silêncio tinha alastrado tão completamente, que não tinha mais expressão vocal do que aquele assobio com o qual se entendia com as suas ovelhas e com o Laboreiro, o cão que o ajudava no pastoreio. E foi em silêncio profundo, que naquele dia vingou a morte da Mimosa, uma das mais bonitas ovelhas do rebanho, que em breve daria à luz, não fora a pedrada certeira que Ruela lhe assentou. Pobre Mimosa!... 
“Sem intenção”: defendeu-se o agressor! Tarde demais…
Silenciosamente, Ramiro ergueu a foice de lâmina afiada, que foi cair como um raio sobre a cabeça do infeliz, sem que nada a detivesse!

Apenas a serra, o velho e silencioso Marão testemunharam o desfecho daquela tragédia. E o silêncio continuou. Dentro e fora daquela alma, muda como um túmulo. Talvez o Marão nem tenha feito repercutir o eco daquele assobio, chamando as ovelhas para o redil!...

Elita Guerreiro *24/5/2018

Para uma análise do conto Mago, in Bichos, Miguel Torga

O gato da Dona Sância

Reflexões a propósito do Conto “Mago”
de M.Torga
                                                                                
O mundo dos felinos é isso mesmo: um mundo.
Um mundo à parte, especial, intrigante, todo de mistério e curiosidade.

Muito se tem escrito sobre o felino mais popular, o “doméstico” gato. Muito se diz, muito se explica e muito se erra, pois não há nada de tão pouco explicável como o comportamento dos gatos!

Assim, é de louvar o conto de Torga e do seu Mago, o gatucho da D. Maria da Glória Sância, velhota gorducha que quer o seu gato sempre em casa, no remanso do seu colo, festinhas e boa comida sempre servida a tempo e horas…

Com efeito, Torga explica-nos os “sentimentos” contraditórios que avassalam este gato, entre o seu instinto selvagem e vagabundo, e o contentamento – sem trabalho nenhum - das suas necessidades básicas: cama e mesa (já que de roupa lavada não se pode dizer para um gato!), o que o torna um sedentário, preguiçoso e molengão!

Mago ainda se lembra, vagamente, do tempo da juventude, dos namoros no telhado do armazém do Tinoco, ainda se lembra dos nomes das belas gatinhas que levou à certa – a Boneca, a Moira-Negra, a Perricha e tantas outras!

Foi precisamente depois da Perricha que um dia, vagueando pelos quintais, foi parar ao da Dona Sância: que o achou magro e escanzelado e o adoptou de imediato; e nunca mais o largou da mão; mimos, festinhas e comidinha da boa (se calhar escova no pelo e tratamento anti pulgas, mas isso…!). Que mais é preciso?
Adeus gato noctívago, correndo atrás do cio das fêmeas mal se anuncia, miando ao luar e lutando pela vida: aqui, em casa da Dona Maria da Glória, de sofá para almofada e do regaço para a cama, já nada disso lhe é necessário… mas tem saudades!

Por vezes ainda quer, pensa que quer… diz que quer; e então sai à rua e procura os antigos companheiros, provoca-os como se ainda tivesse forças para competir com eles, afirma que os filhotes da Faísca são dele… mas qual o quê! Todos sabem que ele sucumbiu aos prazeres do farniente tépido do lar!
Chamam-lhe “lorde”, “milionário” e outras coisas menos reluzentes…
E caem-lhe em cima, todos frescos, cheios de garra e unhas de fora (especialmente o Zimbro, esse valdevinos), e dão-lhe um enxerto de porrada; de tal modo que ele, gordo e mole, já sem fôlego e força vital para lutar, tem que se declarar vencido.
E foge; volta miserável e envergonhado, lambendo as feridas, para o conforto ”castrador, para a paz podre” do colo da Dona!

Miguel Torga, como sempre, oferece-nos uma narração formidável e mostra-nos que compreendeu tudo o que um ser humano pode compreender sobre o comportamento dos gatos…

Outros mistérios daquele mundo extraordinário que é o felino-gato perduram, mas nunca seremos capazes de os desvendar !


M.F. 24/5/2018

Para uma análise do conto Tenório, in Bichos, Miguel Torga

A (BREVE E TRISTE)
HISTÓRIA DE TENÓRIO


A senhora Maria Puga tem olho de lince, no que toca a reconhecer os pintainhos! Uma pessoa pouco informada não vê diferença nenhuma: são todos amarelinhos, redondinhos e piam todos igualmente em concerto ensurdecedor…

Mas ela, vê. E assim que sai da casca, Tenório é baptizado ali, sem nenhuma dúvida: “há-de ficar para galo”!
E assim cresceu, corajoso e lindo até poder dizer-se um galo de verdade, isto é, até, esporões e crista em riste, poder lançar ao mundo o seu estridente e irreprimível cócorocó que acordou meio mundo e empalideceu de ciúmes todos os galitos das redondezas.

A partir desse dia, todo inchado de orgulho e auto-satisfação, foi proclamado o Chefe do galinheiro. E que viessem os galos dos vizinhos: levavam uma coça e fugiam coxos e com algumas plumas a menos.

E viveu assim o Tenório, a majestade galinácea da Senhora Maria Puga, que o olhava de soslaio enquanto fazia crescer outras ninhadas de pintos – entre os quais os filhotes que ele ia semeando – à coca, para ver quando o meteria na panela!

Que ele já andava desconfiado, andava: havia sinais. Mas ele estava tão convencido que a patroa o admirava e dele tinha orgulho, que não queria acreditar que tivesse coragem… Ela não teria coragem para o degolar, como a tinha visto tantas vezes fazer aos seus congéneres !

Mas um dia, quando ia lançar o seu canto, outra voz ressoou, cristalina, jovem, pura Cócorocó … O filho… ah, o filho!
E a patroa a dizer “…um filho que não lhe há-de ficar atrás” ! Lembrou-se de a ouvir tratá-lo de “velho” e veio-lhe um desespero pela “sentença sem apelo”: galo velho ? Ele, o dono e senhor daquele harém a quem nunca deixara de dar assistência? Mau sinal.

Mas a Maria Puga tinha o ouvido fino e mal ouviu cantar o galarote, nem ai nem ui, antes que o Tenório tivesse tempo para fazer conjecturas, veio de lá com a faca afiada e zás: adeus Tenório !


M.F. 18.5.18

Os Bichos de Miguel Torga – Tenório

O galo Tenório é o protagonista da história. À nascença não é fácil diferenciar os pintainhos de uma ninhada. Só mesmo gente experimentada o consegue fazer. Foi o caso da senhora Maria Puga que, ao ver aquele pintainho acabadinho de nascer, logo adivinhou tratar-se de frango macho com potencial para “ficar para galo”.
Cedo, Tenório mostrou querer dar razão à experimentada senhora. E, na primeira oportunidade que teve em medir forças com o líder em exercício, enfrentou-o com tamanha galhardia que o sucesso veio por acréscimo.  
O assalto final à liderança da capoeira ocorreu quando, numa “manhã de Outubro”, Tenório vencendo os medos, lançou o “grito” que a todos convenceu decididamente, có-có-ró-có-có!..
Quer a senhora Maria Puga, quer o senhor António, quer ainda toda a capoeira estavam rendidos à excelente prestação de Tenório e à sua competência nas diversas vertentes a que um galo tem de dar resposta, sem vacilar, na sua atividade diária.
O tempo veio a confirmar todas as expectativas. Maria Puga estava encantada com o desempenho de Tenório e com os elogios vindos de toda a vizinhança. Tenório, esse, não disfarçava a sua vaidade, a sua segurança e a sua vontade de lançar frequentemente o típico có-có-ró-có-có!..
Tudo corria muito bem para Tenório. Esse facto deve ter contribuído para que exagerasse a sua confiança e tivesse baixado a guarda relativamente à concorrência que espreitava pela sua oportunidade, ali mesmo, tão perto de si.
Afinal todos os seres vivos têm o seu ciclo de vida, ou seja: nascem, crescem, atingem a idade adulta, chegam à velhice e finalmente morrem.
Tenório não se apercebeu dessa realidade. Continuava a passear a sua supremacia pelas capoeiras de toda a vizinhança. Enquanto isso, Maria Puga já encontrara alternativa ao nosso herói. Tratava-se do próprio filho de Tenório.
Quando Tenório se apercebeu das intenções da velha ficou, como é costume dizer-se, “para morrer”. Logo, logo, após este pensamento, viu a velha com a faca afiada caminhar na sua direção…
Porventura Tenório julgou-se insubstituível e esqueceu-se que todos nascem para ter uma função e, com naturalidade, acabam por ceder o seu lugar aos mais jovens. Estivesse ele preparado para essa realidade e não teria sofrido tanto na hora da rendição.
Posto isto, é legítimo pensar que Miguel Torga, ao escrever este conto, pretendeu passar duas importantes mensagens:
Ø Todos temos uma missão a cumprir. Porém essa missão não é eterna. Temos de estar preparados para respeitar o ciclo de vida e reconhecer que o poder é efémero.
Ø A vaidade e o orgulho, bem como a falta de humildade, levam a que se perca o foco sobre o essencial. A perda de foco compromete a qualidade e fragiliza a competitividade, apressando, por isso, a chegada da velhice.

Fernando Amaral

Maio de 2018


“TENÓRIO”

Ainda mal saído da casca e já os donos achavam que ia ser um belo galo e prometiam dar-lhe outro destino que não a panela.
Cresceu forte, saudável e belo. E como não podia deixar de ser, cheio de
orgulho da beleza das suas penas coloridas e reluzentes, da sua crista vermelha e dos enormes esporões das suas patas! Era o rei da capoeira e não havia galinha que lhe resistisse! Maio chegou e com ele as festas da Ascensão. Por momentos, esqueceu vaidade, orgulho e tudo o mais, quando viu a dona pegar na faca e degolar os franganotes, seus irmãos.  Pensou, nervoso: será que vai chegar a minha vez? Escapou de boa!... A senhora Maria Puga” continuava firme na sua vontade de fazer dele o dono e senhor daquele harém. Felizmente não fazia parte daquela chacina! Ainda tinha muitas descobertas para fazer! Uma delas, que se
tornou num memorável acontecimento, deu-se no Outono. Tenório sentiu algo de estranho que não conseguia dominar. Sem entender o que se estava a passar,  esticou o pescoço, abriu o bico e cantou pela primeira vez “Cá- que- rá-cá”! Orgulhosa, a dona perguntou ao marido:
- “Ouviste o frango”? Qual frango, qual carapuça! Era um galo feito…
E mostrou ser um valentão, quando o galo da vizinhança invadiu o território, para desinquietar a garnisé. Lutou com alma e acabou com o intruso. Cresceu a vaidade do Tenório e dobrou o respeito do harém.
A partir dai, deixou de ter horas para cantar. De manhã à noite, não perdia a oportunidade de fazer ouvir o cristal da sua voz! Começava, porém, a ficar preocupado e a sentir que o ciúme lhe espicaçava  o coração. Já havia na capoeira alguém que parecia ter capacidade para o  destronar. Herdeiro do seu porte altivo e da sua voz cristalina, era o seu filho, a quem a dona já gabava os feitos! Tudo piorou quando a dona, um belo dia apareceu, munida de faca e alguidar e se aproximou da capoeira. É agora!,  pensou: e não se enganou…

 Terminava ali o seu  reinado. Outro rei tinha sido aclamado.

Elita Guerreiro * Maio de 2018

“BICHOS DE MIGUEL TORGA”
 “TENÓRIO” (o galo)

Ao ser dado o nome de Tenório a um galo, Miguel Torga quis provavelmente dar destaque ao seu belo canto da capoeira (tenor?...).

O conto mostra-nos valores e atitudes da nossa existência:

·       Ninguém é indispensável na vida.
·       Todos nascemos para cumprir uma missão e acabamos por ceder o nosso lugar a outros.
·       Nada é eterno na vida e esta verdade tanto é válida para o homem como para um animal.

No caso de Tenório, que vai envelhecendo, a sua hora irá chegar e outro tomará o seu lugar.

Sofre, ao ponto de se revoltar contra tal situação. Poderia ter preparado esta etapa durante a sua vida. Deveria ter sabido aceitar que o poder é efémero.

Tenório, como todos os seus congéneres, é o exemplo da vaidade pelas suas características físicas:  (“a Crista, e as cores lindas das suas penas dão-lhe um ar altivo”),  e pelas suas características psicológicas – (O Canto e a superioridade no seu reino, a capoeira).

Para ele foi um choque tremendo, mas a verdade é que se cumpriu a sua substituição pelo filho, no harém que fora seu durante anos.

Azeitão, 19-05-2018

Carmo Bairrada