“CEGARREGA”
“CEGARREGA” é mais um conto de Miguel Torga carregado de Poesia e entoando um hino à Vida, à Alegria de Viver, apesar de todas as dificuldades e problemas com que todos nos deparamos pelo caminho.
Aliás, as próprias dificuldades e obstáculos que sempre surgem na tarefa de Viver, contribuem para aumentar essa Alegria, pois o esforço dispendido e o sofrimento que o acompanha constituem degraus numa escalada de vitórias que amplificam a alma e a tornam cada vez mais capaz de apreciar todos os cambiantes da Alegria plena, sempre inatingível e cada vez mais profunda.
A cigarra, como todo o ser vivente, desde o seu nascimento, atravessa fases obscuras em que se sente perdida, confusa, não sabe quem é nem o que pode vir a ser.
Não tem consciência do cosmos, não conhece a lei inexorável da Natureza, parece-lhe que não há lugar para ela no universo imenso.
Resta esperar com coragem, não desanimar nunca, apoiada no Sonho e no Amor envolvente e universal.
Tendo atravessado as primeiras fases das metamorfoses, sente que a sua ânsia de subir vai aumentando gradualmente, na proporção directa dos seus esforços na caminhada.
A compreensão de si própria e a realização pessoal que vai tomando cada vez mais forma, inundam-na de uma Alegria crescente, que se traduz numa vontade imensa de cantar, de glorificar a perfeição, cada vez mais próxima e sublime, apesar de sempre inatingível.
Porque o Sonho não tem fronteiras, o Amor não tem limites.
A sua Alegria esfusiante choca com a incompreensão dos outros que a rodeiam.
Não conhecem as maravilhas das vitórias conseguidas, não compreendem que o sentido da Vida não é apenas trabalhar e sofrer, mas ser Feliz.
Não sabem que a Vida ultrapassa a morte e o sofrimento, e que é urgente cantar e glorificar a Vida em todas as suas etapas.
Só o Poeta a compreende. O Poeta, que acredita na importância de ser feliz e que Viver é uma aprendizagem contínua para alcançar essa mesma Felicidade.
Maria Leonor







