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domingo, 29 de agosto de 2010

A MUDANÇA


1. ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar

no mundo graves tormentos;
e, pera mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só pera mim
anda o mundo concertado.

Luís de Camões


2. MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Luís de Camões, Sonetos


3. in SERMÃO DO 1º DOMINGO DO ADVENTO

 (...) Deste tudo que está sempre passando, é o homem não só a parte principal, mas verdadeiramente o tudo do mesmo tudo. E vendo o homem com os olhos abertos e, ainda os cegos, como tudo passa, só nós vivemos como se não passáramos. Somos como os que navegando com vento e maré, e correndo velocissimamente pelo Tejo acima, se olham fixamente para a terra, parece-lhes que os montes, as torres, e a cidade é a que passa; e os que passam, são eles. É o que disse o poeta: Montes, urbesque recedunt. Mas demos volta a esta mesma comparação, e veremos na Terra outro gênero de engano ainda maior. A maior ostentação de grandeza e majestade que se viu neste mundo, e uma das três que Santo Agostinho desejara ver foi a pompa e magnificência dos triunfos romanos. Entravam por uma das portas da cidade, naquele tempo vastíssimo, encaminhados longamente ao Capitólio: precediam os soldados vencedores com aclamações: seguiam-se, representadas ao natural, as cidades vencidas, as montanhas inacessíveis escaladas, os rios caudalosos vadeados com pontes: as fortalezas e armas dos inimigos, e as máquinas com que foram expugnadas: em grande número de carros os despojos e riquezas, e todo o raro e admirável das regiões novamente sujeitas: depois de tudo isto a multidão dos cativos, e talvez os mesmos reis manietados; e por fim em carroça de ouro e pedraria, tirada por elefantes, tigres, ou leões domados, o famoso triunfador, ouvindo a espaços aquele glorioso e temeroso pregão: Memento te esse mortalem. Enquanto esta grande procissão (que assim lhe chama Sêneca) caminhava, estavam as ruas, as praças, as janelas e os palanques, que para este fim se faziam, cobertos de infinita gente, todos a ver. E se Diógenes então perguntasse, quais eram os que passavam, se os do triunfo, se os que o estavam vendo, não há dúvida, que pareceria a pergunta digna de riso. Mas o certo é que tanto os da procissão e do triunfo, como os que das janelas e palanques os estavam vendo, uns e outros igualmente passavam, porque a vida e o tempo nunca param: e ou indo, ou estando ou caminhando ou parados, todos sempre com igual velocidade passamos. (...)

Padre António Vieira, Sermão do primeiro Domingo do Advento, V


4. FERMOSO TEJO MEU, QUÃO DIFERENTE

 Fermoso Tejo meu, quão diferente

Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.


A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

Franciaco Rodrigues Lobo, Fénix Renascida, I



5. in CANCIONEIRO DE ESPÁRIZ

Tudo o que é verde seca
lá pelo pino do verão:
Tudo torna a renovar,
só a mocidade não.

in http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/etnologia/revistalusitana/20/lusitana20_pag_206.pdf



5.  A VIDA É O DIA DE HOJE

A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;


A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,

A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

João de Deus, Campo de Flores


VÍDEOS: http://www.youtube.com/watch?v=tTTdJ5FM1mY "Mudam-se os tempos...", José Mário Branco)

domingo, 22 de agosto de 2010

A Guerra

A Guerra

1. (Cantiga de Escárnio; crítica a um desertor não identificado: Dom Fulano)

Don Foão, que eu sei que ha preço de livão,
vedes que fez ena guerra (daquesto soo certão):
sol que viu os genetes, come boi que fer tavão,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
-çou rab'e foi sa vía a Portugal.

Don Foão, que eu sei que ha preço de ligeiro,
vedes que fez ena guerra (daquesto son verdadeiro):
sol que viu os genetes, come bezerro tenreiro,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
-çou rab'e foi sa vía a Portugal.

Don Foão, que eu sei que ha prez de liveldade,
vedes que fez ena guerra (sabede-o por verdade):
sol que viu os genetes, come can que sal de grade,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
-çou rab'e foi sa vía a Portugal.

Afonso Mendes de Besteiros (in Cancioneiro da Biblioteca Nacional, nº 1558)

2. “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro”.

Padre António Vieira, Sermão Histórico e Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, II, in http://joseeduardolopes.tripod.com/id26.html


3. CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

SENA, Jorge de, Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, Lisboa: Moraes, 1963.

4. O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mão. Está inteira
É boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece")
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa