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segunda-feira, 20 de junho de 2022

sobre "O Conto da Ilha Desconhecida", José Saramago

 

“DÁ-ME UM BARCO”

SOBRE "O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA", JOSÉ SARAMAGO

 

É um louco… sorriu o rei!

- Dá-me um barco!

O homem insistiu…

Começava o rei a ficar farto.

- Para que queres um barco?

- Vou procurar a ilha Desconhecida

Lá nos confins do mar!

- Mas já todas têm vida!

- Vou saber quando a encontrar,

Dá-me um barco.

Conto-te quando voltar!

- E essa ilha vai ser para mim?

- Se já tens as conhecidas

No teu mapa sem fim,

Para que queres as desconhecidas

Se nem acreditas em mim?

Falou então o rei, cansado, farto:

Vai ao cais falar com o Capitão,

Para que te dê um barco…

E assinou a ordem num cartão!

O barco não valia nada!

A tripulação era a mulher até ali calada.

Mas ambos a acharam muito bela

- “Como é linda a nossa caravela!"

Não saíram do atracadouro

Presos ao seu sonho de aventura,

O sonho que era o seu tesouro

Diziam os demais que era loucura!

E de corpos unidos continuaram a sonhar.

Faltava um último passo,

Naquele ínfimo espaço!

Estava o barco por baptizar…

E como se gravassem a própria vida,

Pintaram na proa da “caravela”

ILHA DESCONHECIDA…

E como era bela!

Batiam as ondas nos costados

Do barco que não saiu do cais,

E os corpos unidos enlaçados

Eram tripulação, leme, arrais!

 

Elita Guerreiro 8 /6/2022

segunda-feira, 28 de março de 2011

Em Demanda da "Ilha Desconhecida".4 (do conto de José Saramago)

(De como Nélida Silva embarcou com Saramago e navegou à bolina da sua pontuação...)

A realidade de um sonho

          Eis aqui a história real ou imaginária da vida de dois seres unidos pelo destino, ambos com ambições e quereres antagónicos, mas semelhantes, para descobrirem o que querem da vida e lutar para obter o fim almejado.
Um homem e uma mulher que o acaso fez encontrar-se em situações contraditórias, ele queria pedir ao rei um barco, ela a personagem que conseguiria fazer chegar o seu pedido ao rei (a mulher da limpeza) e que abria a porta das petições.
Este homem tinha um sonho que queria realizar, descobrir uma ilha desconhecida, onde pudesse realmente descobrir-se a si mesmo e o que queria da vida, mas para tal necessitaria de um barco e foi isso mesmo que respondeu ao rei quando este resolveu abrir a porta das petições, curioso por conhecer e até despachar aquele atrevido que não lhe abandonava a porta.
Ouvindo o pedido do homem e os seus argumentos e em resposta às suas perguntas, o rei inicialmente disse que não lhe dava o barco.
O homem não se intimidando disse:
         -Davas sim, quem és tu, para que mo negues?
         A multidão, que entretanto já se tinha aglomerado à porta, escutando o diálogo entre os dois, cansados de esperar, e mais para se verem livres do homem que por solidariedade com o mesmo, começaram a gritar para o rei lhe dar o barco.
O rei preocupado com semelhante atitude e manifestação popular e com o que já haveria perdido na porta dos obséquios, levantou a mão a impor silêncio e disse:
-Vou dar-te um barco, mas tripulação terás tu que arranjar.
O homem agradeceu em voz baixa, dizendo que ele lá se arranjaria com a tripulação e outros assuntos.
O rei deu-lhe um cartão, para o homem ir à doca, à procura do capitão do porto dizes que vais da minha parte e que mando que te dê um barco, que navegue e que seja seguro.
Quando o homem levantou a cabeça para agradecer, já a porta estava fechada e apesar da aldraba de bronze tornar a chamar, a mulher da limpeza, já não se encontrava lá para a abrir.
Esta, que tudo tinha atentamente observado, cheia de curiosidade e esperteza, descobrindo que estava ali a forma de poder mudar de vida, já tinha saído, de balde e vassoura na mão pela porta das decisões a caminho do porto pois, pensava ela, limpar barcos é que é o meu ofício, pois no mar a água nunca lhe faltaria.
Enquanto o homem caminhava para o porto, apressadamente, não sonhava sequer que ainda não tendo barco, nem tripulação, já levava atrás de si (à frente, pois ela tinha saído apressadamente) a futura encarregada das limpezas e outros anseios, pois é assim que muitas vezes o destino determina as vicissitudes da vida.
Ao chegar ao porto para falar com o capitão, a sua sorte já estava jogada. A mulher que tinha chegado primeiro fez uma avaliação às embarcações e a sua escolha recaiu sobre uma caravela.
O homem apresentou-se ao capitão com o cartão do rei. Este fez-lhe as respectivas perguntas a fim de saber qual o tipo de barco, qual a sua função (destino) se era o marinheiro, etc… e chegou à conclusão que o barco ideal seria a caravela, aquela que a mulher já considerava como sua (tinha sido a sua escolha) quando exclamara:
- É este o meu barco!
Confuso, o homem interrogou-a sobre a sua identidade, ao qual ela se apresentou como a mulher da porta das petições e como já estava farta de tanto abrir e fechar portas, dali em diante, só se interessaria pela limpeza de barco.
Após terem decidido que ambos estavam interessados em embarcar para o desconhecido, para tentar encontrar a ilha desconhecida e recomeçar nela uma nova vida, ambos decidiram as tarefas, ela ficaria encarregue de preparar o barco enquanto ele iria recrutar a tripulação.
O dia passou, o sol já lá ia alto, a mulher que já tinha efectuado todas as tarefas inerentes ao bom funcionamento do barco, limpezas, arranjos, etc.… começou a ficar preocupada com a ausência e demora do homem, bem como com a falta de alimentos a bordo.
Ao pôr-do-sol, estava ela já num estado de ansiedade, quando ao longe viu aparecer o homem sozinho, apenas com um embrulho debaixo do braço.
Sozinho e cabisbaixo o homem chegou à caravela entregando o embrulho à mulher dizendo que seria o seu jantar. Quando esta perguntou pela tripulação, ele manifestou grande desilusão e descontentamento, pois não tinha conseguido ninguém que quisesse embarcar naquela aventura, baseando-se em vários subterfúgios, que não havia nenhuma ilha por descobrir, não estavam interessados em tirar-se do sossego dos lares, e da boa vida dos barcos de carreira, para se meterem em aventuras temerosas...
Preocupada, mas sem o querer magoar e tentando encorajá-lo, ela sugeriu ficarem a viver no barco, e ela iria oferecer os seus préstimos para lavar e limpar os barcos que chegassem à doca.
Arrojada, ela perguntou-lhe se não tinha nenhuma profissão, ao que ele respondeu que já tinha tido, ainda tinha, mas o que realmente ambicionava era encontrar a ilha, e encontrar-se a si próprio e lá sim, quando lá estivesse, saberia realmente quem era, o que queria ser, pois era necessário sair da ilha para a ver, que não nos vemos se não sairmos de nós.
O homem propôs irem jantar, mas a mulher, já com algum sentido de autoridade e controlo da situação, quase exigiu que deveriam ir primeiro conhecer o seu barco, verificar se se encontrava em condições de zarpar mesmo sem tripulação, mas os dois sozinhos, quando fosse possível e houvesse condições atmosféricas, boas marés, pois haveriam de resolver, os dois, e concretizar o sonho que já era de ambos.
Terminado o jantar, ele enleado nas artimanhas da sedução e habilidade da mulher, viu o seu sentimento pela mesma evoluir, passando de patrão e empregada a um sentimento mais profundo, fazendo-o observá-la mais atentamente sob a luz do luar, achando-a mais bonita, ela assim como a caravela, talvez sedutora na maneira como lhe conseguia ir mudando alguns conceitos e aceitando sugestões e até ordens da mesma.
Já a noite ia alta quando resolveram dormir, muito embora não fosse esse o seu desejo, pois encontravam-se enlevados contemplando a lua e o mar, e quiçá, um ao outro num início de romance.
Cada um dirigiu-se para os beliches nos extremo opostos da caravela, desejando ela que dormisse bem e ele que tivesse sonhos felizes, pensando que quando estivesse sozinho vir-lhe-iam à ideia outras frases mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem que está sozinho com uma mulher.
Deitado pôs-se a pensar na companheira, se já dormia, se teria dificuldade em adormecer e depois no seu sono já profundo imaginou andar à sua procura e não a encontrar, que estariam perdidos os dois num barco enorme.
O sonho continua, nele, sente a falta da mulher porque o sonho muda as formas de comportamento, separa e reúne sentimentos e afectos e mesmo a mulher dormindo a poucos passos, ele não consegue alcançá-la, quando é tão fácil chegar até ela.
Depois continua a sonhar com a caravela em mar alto, com as três velas enfunadas, enquanto ela manejava o leme, a caravela cheia de animais, marinheiros, alimentos, árvores, uma ilha ambulante.
Ao vislumbrarem uma ilha que já vinha no mapa, a tripulação insubordinou-se e obrigou o homem com ameaças de morte a encostar para abandonarem o barco, levando tudo o que puderam, apenas deixando as árvores, o trigo e as flores que se desenvolveriam na terra deixada na caravela pelos sacos que se tinham rompido. Como o sonho continua, as árvores e as sementes desenvolveram e quando ele deixa o leme para cortar as primeiras espigas, viu uma sombra ao lado da sua.
 Acordou abraçado à mulher, ele e ela confundidos no mesmo beliche.
Amanheceu, a realidade era apenas os dois que iriam iniciar a sua viagem, na procura da sua ilha, da sua verdade, da sua felicidade.

Tal como este homem que não encontrou respostas na sua Terra, podemos interpretar a vida do autor que, ao sentir-se abandonado, afastado e não valorizado, quis realizar o seu sonho numa ilha, viver o seu sonho, o seu grande amor, com a mulher escolhida que lhe serviu de leme, companheira, amiga, paixão e acompanho, ou a quem levou para viverem a sua felicidade, na ilha por eles escolhida, não desconhecida, mas onde conseguisse conhecer-se, realizar-se e ser feliz e ser reconhecido mundialmente, muito especialmente, quando ganhou o Prémio Nobel.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Em Demanda da "Ilha Desconhecida".3 (do conto de José Saramago)

o de
   JOSÉ   SARAMAGO:
breves apontamentos biográficos em "O Conto da Ilha Desconhecida"

 Nasceu a 16 , mas foi registado a 18 de Novembro de 1922.  No seu nome passou a constar SARAMAGO, por erro do funcionário publico.
Passou a sua infância em Lisboa, onde fez o curso de serralheiro mecânico, tendo depois trabalhado nos Hospitais Civis de Lisboa, passando a escriturário em 1942.
Em 1943 é afastado da Caixa de Abono de Família do Pessoal da Industria Cerâmica por apoiar a candidatura de Norton de Matos.
Em 1944 casa com a pintora  Ilda Reis, da qual tem uma filha (Violante).
De 1947 a 1966 publica Terra do Pecado, Clarabóia, O Mel e o Fel, Os Emparedados e Rua.
Faz traduções de vários autores estrangeiros e trabalha na Editora Estúdios Cor.
Em 1966 edita o primeiro livro de poemas  Os Poemas Possíveis.
Em 1969 filia-se no P.C.P..
Em 1970 divorcia-se de Ilda Reis e vai viver para a Parede. Vive com a escritora Isabel da Nóbrega até 1986.
Entretanto publica crónicas no "Jornal do Fundão" e "Diário de Lisboa" que, posteriormente, compila e publica.
Em 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias onde saneou vários jornalistas por não serem do partido. Faz parte do MUTI (Movimento  Unitário de Trabalhadores Inteletuais).
Nesta fase da vida mais conturbada, tal como a mulher do conto decide passar pela porta das decisões e não volta a empregar-se,  dedicando-se exclusivamente à escrita.
A partir daqui publica o livro Levantado do Chão, 1980 e Memorial do Convento, 1982, com o qual ganha visibilidade.
Em 1984, preside à  Assembleia da Sociedade Portuguesa de Autores e publica O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Em 1986, publica A Jangada de Pedra e conhece Pilar del Rio (será esta a mulher do conto?).
Em 1991 publica O Evangelho Segundo Jesus Cristo, livro que lhe traz muitos opositores :
O Governo em 1992 (Sousa Lara, secretário  da cultura) veta o mesmo a Prémio literário Europeu. ( o Rei não lhe dá o barco logo de início)
O deputado europeu Mário David diz ter vergonha de ser seu compatriota e aconselha-o a deixar a nacionalidade Portuguesa.
A Igreja critica-o por considerar que leu a Biblia como um “manual de maus costumes” e, mais tarde, considera-o como um ideólogo anti-religioso.
Serão estes os marinheiros do sonho, que o não querem acompanhar e  desembarcam antes de chegar à ilha desconhecida? É  em 1991 que ele sai de Portugal descontente com as criticas que lhe são feitas.
No entanto, recebe apoio de outras personalidades: Manuel Alegre e Edite Estrela.
Por outro lado, recebe vários prémios literários de  outros países. (a multidão a gritar para que o Rei lhe conceda o barco)
E assim acontece: com o apoio do Governo, é feita uma campanha através de uma empresa de publicidade Sueca.
O ICEP organiza entrevistas , seminários e discursos na Suécia.
Em 1998 recebe o Prémio Nobel da Literatura
 Durante o período que se seguiu, escreveu muitos outros livros, entre os quais,  Caim (2009), lhe trouxe  nova critica por parte da Igreja e da opinião pública católica.
Publicou ainda entre outros:
Ensaio sobre a cegueira, 1995
A caverna, 2000
As intermitências da morte, 2005
A viagem do elefante, 2008

Apesar de toda a polémica, foi premiado por muitos países, sendo mesmo distinguido com títulos  Doutor Honoris Causa por muitas Universidades de todo o Mundo.

Faleceu a 18 de Junho de 2010,  na sua ilha (Lanzarote),  aos 87 anos.

  Fontes :
 Wikipédia
Expresso, “ A vida de José Saramago”
(trabalho de Manuel Valinho de Almeida)

Em Demanda da "Ilha Desconhecida".2 (do conto de José Saramago)


Depois de ler e analisar o texto "o Conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago, gostaria de abordar à minha maneira o Sonho do Homem e a sua relação com a Mulher, sua companheira de aventura, sonhadora.

O sonho é um mundo que poderá levar a qualquer lugar os desejos mais intensos do ser humano. As próprias imagens podem revelar um "futuro" e dar resposta a uma "procura".

O Homem e a Mulher vão experienciando o lado sentimental de modo diferente: há uma busca equivocada da plenitude no "outro".

exs: Homem: "É bonita"... "Que tenhas sonhos bonitos"
     Mulher: "Vê-se bem que só tens olhos para a Ilha Desconhecida"


O prestidigitador hábil ( o sonho, o amor...) muda as distâncias, separa as pessoas, e elas estão juntas e quase não se vêem uma à outra: a mulher dorme a poucos metros do homem.

O sentido da vida (navegação para a Ilha Desconhecida) só irá revelar-se quando o homem e a mulher se completarem e integrarem dentro de (e entre) si: confundidos os corpos, confundidos os beliches, acordando abraçados. Assim acontece quando o desejo de há muito sentido se converte na mais pura realidade.

....
O sol já brilhava e os dois em conjunto foram à proa pintar com tinta branca o nome que faltava à Caravela.

Pela hora do meio-dia (meio da sua viagem, também interior), com a maré,

A "ILHA DESCONHECIDA" FEZ-SE AO MAR À PROCURA DE SI MESMA.

(Texto e ilustrações de Carmo Bairrada)


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Em Demanda da "Ilha Desconhecida"1 (do conto de José Saramago)

Seguem 2 versões do poema inicial de Joaquim A. Oliveira:

o 1º, em verso longo...
" Somos todos viajantes neste mundo inóspito, e o melhor que poderemos encontrar em nossa viagem, é um amigo fiel, ou um grande amor "
 (Robert Louis Stevenson )

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SONHO ( e IDENTIDADE): "O conto da ilha desconhecida" de José Saramago



O conto da ilha desconhecida
José Saramago

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.
Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.
Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.
A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.
Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
José saramago
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=5081&cat=Ensaios (sobre a pontuação literária em José Saramago)


"O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. "
Fernando Pessoa, in "Horizonte", Mensagem