sábado, 16 de junho de 2018

Para uma análise do conto "Senhor Nicolau", Bichos, Miguel Torga



“BICHOS” DE MIGUEL TORGA
“O SENHOR NICOLAU” 

Este conto do Senhor Nicolau é vivenciado entre a infância e o seu final de vida.
Desde muito criança, gostava de apanhar toda a espécie de insectos: todos o atraiam: com maior incidência, procurava libélulas e borboletas.

Levava-os para casa e ia guardando, um a um, dentro de caixas, mas tinha sempre o desejo de ter mais e mais e aquele desejo aumentou e prolongou-se pela vida fora. Já adulto, vivia sozinho e todo o seu tempo era dedicado à sua enorme colecção que era já dum tamanho desmedido.

Assim levava os dias rodeado dos seus queridos insectos, seus companheiros de eleição. Segundo o Senhor Nicolau, vivia muito melhor com eles de que com pessoas.

“O seu mundo fechava-se ali, concêntrico, sem horizontes, murado pelas muitas estantes envidraçadas onde o sonho se conservava em naftalina. (…) mas o Senhor Nicolau alheio às paixões humanas, continuava a povoar os dias de libelulas e borbletas.” (pág. 123)

Afinal, pertencemos todos ao mesmo mundo, Não se está assim tão distante, como podem pensar algumas pessoas.

A aproximação entre o Senhor Nicolau e os insectos, a vida inteira, mostra-nos como os afectos são diferentes entre cada ser.
Com a descrição que é feita, o Autor faz-nos ver a sua vida até à hora da morte:

“E daí a nada, depois da última contracção, sereno e de olhos fechados, ali ficou quieto e feliz, à espera que o metessem na sua caixa”. (pág. 125)

O Senhor Nicolau: ele próprio um insecto… reduzido a uma caixa…de catalogação.

Azeitão 04-06-2018
Carmo Bairrada

Obra: BICHOS
Autor : Miguel Torga
Editora – Coimbra
7ª. Edição revista em 1970

Para uma análise do conto "Ramiro", in Bichos, Miguel Torga



“RAMIRO”

Se alguma vez a voz lhe saiu espontaneamente da sua garganta, deve ter sido quando em criança disse as primeiras palavras, porque de há longo tempo a esta parte, ninguém lhe arrancava mais que um “Han”…
O silêncio melancólico das serras onde apascentava o seu rebanho quebrara-lhe a voz e a vontade de contactar com os seus semelhantes. Tal como os animais rastejantes ou não, que com ele conviviam no silêncio do Marão e com ele partilhavam não só o espaço, mas o mesmo mutismo, Ramiro via passar os dias e os anos, só, entre o céu e a terra.
Dir-se-ia que era desprovido de sentimentos, de sensibilidade! Ah!...
Mas não era essa a verdade. No coração do Ramiro, havia uma Rosa.
Rosa que era um espinho cravado no mais fundo do seu ser! Assobiar-lhe, como fazia com o seu rebanho, não resultaria, ele sabia isso. Dentro de si, o silêncio tinha alastrado tão completamente, que não tinha mais expressão vocal do que aquele assobio com o qual se entendia com as suas ovelhas e com o Laboreiro, o cão que o ajudava no pastoreio. E foi em silêncio profundo, que naquele dia vingou a morte da Mimosa, uma das mais bonitas ovelhas do rebanho, que em breve daria à luz, não fora a pedrada certeira que Ruela lhe assentou. Pobre Mimosa!... 
“Sem intenção”: defendeu-se o agressor! Tarde demais…
Silenciosamente, Ramiro ergueu a foice de lâmina afiada, que foi cair como um raio sobre a cabeça do infeliz, sem que nada a detivesse!

Apenas a serra, o velho e silencioso Marão testemunharam o desfecho daquela tragédia. E o silêncio continuou. Dentro e fora daquela alma, muda como um túmulo. Talvez o Marão nem tenha feito repercutir o eco daquele assobio, chamando as ovelhas para o redil!...

Elita Guerreiro *24/5/2018

Para uma análise do conto Mago, in Bichos, Miguel Torga

O gato da Dona Sância

Reflexões a propósito do Conto “Mago”
de M.Torga
                                                                                
O mundo dos felinos é isso mesmo: um mundo.
Um mundo à parte, especial, intrigante, todo de mistério e curiosidade.

Muito se tem escrito sobre o felino mais popular, o “doméstico” gato. Muito se diz, muito se explica e muito se erra, pois não há nada de tão pouco explicável como o comportamento dos gatos!

Assim, é de louvar o conto de Torga e do seu Mago, o gatucho da D. Maria da Glória Sância, velhota gorducha que quer o seu gato sempre em casa, no remanso do seu colo, festinhas e boa comida sempre servida a tempo e horas…

Com efeito, Torga explica-nos os “sentimentos” contraditórios que avassalam este gato, entre o seu instinto selvagem e vagabundo, e o contentamento – sem trabalho nenhum - das suas necessidades básicas: cama e mesa (já que de roupa lavada não se pode dizer para um gato!), o que o torna um sedentário, preguiçoso e molengão!

Mago ainda se lembra, vagamente, do tempo da juventude, dos namoros no telhado do armazém do Tinoco, ainda se lembra dos nomes das belas gatinhas que levou à certa – a Boneca, a Moira-Negra, a Perricha e tantas outras!

Foi precisamente depois da Perricha que um dia, vagueando pelos quintais, foi parar ao da Dona Sância: que o achou magro e escanzelado e o adoptou de imediato; e nunca mais o largou da mão; mimos, festinhas e comidinha da boa (se calhar escova no pelo e tratamento anti pulgas, mas isso…!). Que mais é preciso?
Adeus gato noctívago, correndo atrás do cio das fêmeas mal se anuncia, miando ao luar e lutando pela vida: aqui, em casa da Dona Maria da Glória, de sofá para almofada e do regaço para a cama, já nada disso lhe é necessário… mas tem saudades!

Por vezes ainda quer, pensa que quer… diz que quer; e então sai à rua e procura os antigos companheiros, provoca-os como se ainda tivesse forças para competir com eles, afirma que os filhotes da Faísca são dele… mas qual o quê! Todos sabem que ele sucumbiu aos prazeres do farniente tépido do lar!
Chamam-lhe “lorde”, “milionário” e outras coisas menos reluzentes…
E caem-lhe em cima, todos frescos, cheios de garra e unhas de fora (especialmente o Zimbro, esse valdevinos), e dão-lhe um enxerto de porrada; de tal modo que ele, gordo e mole, já sem fôlego e força vital para lutar, tem que se declarar vencido.
E foge; volta miserável e envergonhado, lambendo as feridas, para o conforto ”castrador, para a paz podre” do colo da Dona!

Miguel Torga, como sempre, oferece-nos uma narração formidável e mostra-nos que compreendeu tudo o que um ser humano pode compreender sobre o comportamento dos gatos…

Outros mistérios daquele mundo extraordinário que é o felino-gato perduram, mas nunca seremos capazes de os desvendar !


M.F. 24/5/2018

Para uma análise do conto Tenório, in Bichos, Miguel Torga

A (BREVE E TRISTE)
HISTÓRIA DE TENÓRIO


A senhora Maria Puga tem olho de lince, no que toca a reconhecer os pintainhos! Uma pessoa pouco informada não vê diferença nenhuma: são todos amarelinhos, redondinhos e piam todos igualmente em concerto ensurdecedor…

Mas ela, vê. E assim que sai da casca, Tenório é baptizado ali, sem nenhuma dúvida: “há-de ficar para galo”!
E assim cresceu, corajoso e lindo até poder dizer-se um galo de verdade, isto é, até, esporões e crista em riste, poder lançar ao mundo o seu estridente e irreprimível cócorocó que acordou meio mundo e empalideceu de ciúmes todos os galitos das redondezas.

A partir desse dia, todo inchado de orgulho e auto-satisfação, foi proclamado o Chefe do galinheiro. E que viessem os galos dos vizinhos: levavam uma coça e fugiam coxos e com algumas plumas a menos.

E viveu assim o Tenório, a majestade galinácea da Senhora Maria Puga, que o olhava de soslaio enquanto fazia crescer outras ninhadas de pintos – entre os quais os filhotes que ele ia semeando – à coca, para ver quando o meteria na panela!

Que ele já andava desconfiado, andava: havia sinais. Mas ele estava tão convencido que a patroa o admirava e dele tinha orgulho, que não queria acreditar que tivesse coragem… Ela não teria coragem para o degolar, como a tinha visto tantas vezes fazer aos seus congéneres !

Mas um dia, quando ia lançar o seu canto, outra voz ressoou, cristalina, jovem, pura Cócorocó … O filho… ah, o filho!
E a patroa a dizer “…um filho que não lhe há-de ficar atrás” ! Lembrou-se de a ouvir tratá-lo de “velho” e veio-lhe um desespero pela “sentença sem apelo”: galo velho ? Ele, o dono e senhor daquele harém a quem nunca deixara de dar assistência? Mau sinal.

Mas a Maria Puga tinha o ouvido fino e mal ouviu cantar o galarote, nem ai nem ui, antes que o Tenório tivesse tempo para fazer conjecturas, veio de lá com a faca afiada e zás: adeus Tenório !


M.F. 18.5.18

Os Bichos de Miguel Torga – Tenório

O galo Tenório é o protagonista da história. À nascença não é fácil diferenciar os pintainhos de uma ninhada. Só mesmo gente experimentada o consegue fazer. Foi o caso da senhora Maria Puga que, ao ver aquele pintainho acabadinho de nascer, logo adivinhou tratar-se de frango macho com potencial para “ficar para galo”.
Cedo, Tenório mostrou querer dar razão à experimentada senhora. E, na primeira oportunidade que teve em medir forças com o líder em exercício, enfrentou-o com tamanha galhardia que o sucesso veio por acréscimo.  
O assalto final à liderança da capoeira ocorreu quando, numa “manhã de Outubro”, Tenório vencendo os medos, lançou o “grito” que a todos convenceu decididamente, có-có-ró-có-có!..
Quer a senhora Maria Puga, quer o senhor António, quer ainda toda a capoeira estavam rendidos à excelente prestação de Tenório e à sua competência nas diversas vertentes a que um galo tem de dar resposta, sem vacilar, na sua atividade diária.
O tempo veio a confirmar todas as expectativas. Maria Puga estava encantada com o desempenho de Tenório e com os elogios vindos de toda a vizinhança. Tenório, esse, não disfarçava a sua vaidade, a sua segurança e a sua vontade de lançar frequentemente o típico có-có-ró-có-có!..
Tudo corria muito bem para Tenório. Esse facto deve ter contribuído para que exagerasse a sua confiança e tivesse baixado a guarda relativamente à concorrência que espreitava pela sua oportunidade, ali mesmo, tão perto de si.
Afinal todos os seres vivos têm o seu ciclo de vida, ou seja: nascem, crescem, atingem a idade adulta, chegam à velhice e finalmente morrem.
Tenório não se apercebeu dessa realidade. Continuava a passear a sua supremacia pelas capoeiras de toda a vizinhança. Enquanto isso, Maria Puga já encontrara alternativa ao nosso herói. Tratava-se do próprio filho de Tenório.
Quando Tenório se apercebeu das intenções da velha ficou, como é costume dizer-se, “para morrer”. Logo, logo, após este pensamento, viu a velha com a faca afiada caminhar na sua direção…
Porventura Tenório julgou-se insubstituível e esqueceu-se que todos nascem para ter uma função e, com naturalidade, acabam por ceder o seu lugar aos mais jovens. Estivesse ele preparado para essa realidade e não teria sofrido tanto na hora da rendição.
Posto isto, é legítimo pensar que Miguel Torga, ao escrever este conto, pretendeu passar duas importantes mensagens:
Ø Todos temos uma missão a cumprir. Porém essa missão não é eterna. Temos de estar preparados para respeitar o ciclo de vida e reconhecer que o poder é efémero.
Ø A vaidade e o orgulho, bem como a falta de humildade, levam a que se perca o foco sobre o essencial. A perda de foco compromete a qualidade e fragiliza a competitividade, apressando, por isso, a chegada da velhice.

Fernando Amaral

Maio de 2018


“TENÓRIO”

Ainda mal saído da casca e já os donos achavam que ia ser um belo galo e prometiam dar-lhe outro destino que não a panela.
Cresceu forte, saudável e belo. E como não podia deixar de ser, cheio de
orgulho da beleza das suas penas coloridas e reluzentes, da sua crista vermelha e dos enormes esporões das suas patas! Era o rei da capoeira e não havia galinha que lhe resistisse! Maio chegou e com ele as festas da Ascensão. Por momentos, esqueceu vaidade, orgulho e tudo o mais, quando viu a dona pegar na faca e degolar os franganotes, seus irmãos.  Pensou, nervoso: será que vai chegar a minha vez? Escapou de boa!... A senhora Maria Puga” continuava firme na sua vontade de fazer dele o dono e senhor daquele harém. Felizmente não fazia parte daquela chacina! Ainda tinha muitas descobertas para fazer! Uma delas, que se
tornou num memorável acontecimento, deu-se no Outono. Tenório sentiu algo de estranho que não conseguia dominar. Sem entender o que se estava a passar,  esticou o pescoço, abriu o bico e cantou pela primeira vez “Cá- que- rá-cá”! Orgulhosa, a dona perguntou ao marido:
- “Ouviste o frango”? Qual frango, qual carapuça! Era um galo feito…
E mostrou ser um valentão, quando o galo da vizinhança invadiu o território, para desinquietar a garnisé. Lutou com alma e acabou com o intruso. Cresceu a vaidade do Tenório e dobrou o respeito do harém.
A partir dai, deixou de ter horas para cantar. De manhã à noite, não perdia a oportunidade de fazer ouvir o cristal da sua voz! Começava, porém, a ficar preocupado e a sentir que o ciúme lhe espicaçava  o coração. Já havia na capoeira alguém que parecia ter capacidade para o  destronar. Herdeiro do seu porte altivo e da sua voz cristalina, era o seu filho, a quem a dona já gabava os feitos! Tudo piorou quando a dona, um belo dia apareceu, munida de faca e alguidar e se aproximou da capoeira. É agora!,  pensou: e não se enganou…

 Terminava ali o seu  reinado. Outro rei tinha sido aclamado.

Elita Guerreiro * Maio de 2018

“BICHOS DE MIGUEL TORGA”
 “TENÓRIO” (o galo)

Ao ser dado o nome de Tenório a um galo, Miguel Torga quis provavelmente dar destaque ao seu belo canto da capoeira (tenor?...).

O conto mostra-nos valores e atitudes da nossa existência:

·       Ninguém é indispensável na vida.
·       Todos nascemos para cumprir uma missão e acabamos por ceder o nosso lugar a outros.
·       Nada é eterno na vida e esta verdade tanto é válida para o homem como para um animal.

No caso de Tenório, que vai envelhecendo, a sua hora irá chegar e outro tomará o seu lugar.

Sofre, ao ponto de se revoltar contra tal situação. Poderia ter preparado esta etapa durante a sua vida. Deveria ter sabido aceitar que o poder é efémero.

Tenório, como todos os seus congéneres, é o exemplo da vaidade pelas suas características físicas:  (“a Crista, e as cores lindas das suas penas dão-lhe um ar altivo”),  e pelas suas características psicológicas – (O Canto e a superioridade no seu reino, a capoeira).

Para ele foi um choque tremendo, mas a verdade é que se cumpriu a sua substituição pelo filho, no harém que fora seu durante anos.

Azeitão, 19-05-2018

Carmo Bairrada

Para uma análise do conto "Ladino", in Bichos, Miguel Torga



“LADINO”

Aquilo é que era um figurão! Com a desculpa de ter medo de se despenhar lá das alturas, ia ficando no aconchego do ninho, enquanto o resto da ninhada já se fizera à vida. Oportunista, ia beneficiando da paciência dos pais que o continuavam a alimentar.
Mas paciência é uma virtude que, como tudo, tem o seu limite e os pais
achavam que estava na hora de o Ladino fazer uso das suas asas e tomar o rumo da sua vida. A mãe tentava passar-lhe os seus conhecimentos, como toda a mãe que se preza. Menos paciente, o pai já acompanhava os ensinamentos com algumas bicadas. Mas o molengão não cedia! Como qualquer criança birrenta, que tenta levar por diante a sua vontade, ele fazia “ finca-pé, finca patas” e não obedecia. E depois era  tão bom, tão confortável o calor do ninho! Mas… tinha que ser. Já que tanto insistiam e que a voz da Natureza falava mais alto!... Criou coragem e sob a vigilância da mãe, muito cheio de tremeliques e agonias, lá conseguiu abrir as asas e fazer aquilo para que o destino o dotara, voar.
E pronto. Era um pardal e a liberdade estava ali: nas suas asas, no azul infinito daquele céu, nas medas de cereais, onde doravante encheria o papo. Não temia o espantalho, terror do passaredo que esvoaçava por sobre o arvoredo da herdade. Fora difícil sair do ninho, mas agora nada o amedrontava. Tinha um nome a defender, tinha uma vida para viver em liberdade e paz, se o deixassem, é claro! Um tipo, por muito esperto que seja, nunca está livre da fisgada dum puto ou do chiar do azeite numa frigideira qualquer. Astuto, escapava às armadilhas que a vida lhe armava! Manhoso, fingia-se comovido, quando as fêmeas se queixavam da dificuldade em alimentar as suas crias. Cabia-lhe a paternidade de algumas, pois não havia fêmea que lhe resistisse! Mas filhos? Nem pensar! Ladino não abdicava do seu estatuto de solteirão.
O que ele queria mesmo era gozar o calor do sol, beber água fresca na ribeira e saltitar de papo cheio pelos telhados. E que as lareiras não se apagassem no Inverno, para dormir quentinho e aconchegado, junto às chaminés. Ele é que a levava direita, sim senhor, grande Ladino!...

A vida é isso mesmo, quais preocupações, quais responsabilidades!
É viver e está tudo dito!...

Elita Guerreiro 22/5/2018


PARDAIS

Os pardalitos são espertos : é regra !
O Ladino que nos conta Torga não é excepção.

Começa timidamente, no berço fofo do ninho lá no alto duma árvore frondosa, bem reparado do sol como da chuva, com medo de… voar! É compreensível : aquilo é mesmo uma altura vertiginosa para um simples pardal e este ainda é pequenino.
O chão, que de tão longe nem se distingue bem, parece estar a léguas de distância e qualquer um teria medo.

Ah Torga, que falas tão bem dos “Bichos” e nos dás horas de leitura que são outras tantas horas de prazer! E aprendemos sempre qualquer coisa …

Este pardal, uma vez ultrapassado aquele momento de angústia, levantado o vôo exordial, é a expressão da liberdade total das aves que alegram os nossos céus, encantam os nossos ouvidos com o seu chilrear e… nos livram de algumas pragas sazonais, o que não é negligenciável !

Mas o Ladino tem, neste conto – e na imaginação do autor -, as características originais da sua espécie; por exemplo, assim que saiu do ninho foi para encher o papo à fartazana… Não há campo de milho ou trigo que ele não visite e não poupa bichinho que não se cuide de fugir a tempo… 
Não teme os espantalhos : percebeu logo o que são, inertes guardiões de campos solitários e imensuráveis onde abunda a paparoca !
Mas teme, vejam lá, quem o quer pôr a assar… pois não:  tão bom passarinho assado !
Como é que ele aprendeu o que é uma fisga ?! Assim que vê chegar o rapazito com ar distraído a assobiar como quem não quer a coisa, ele, Ladino, já sabe ao que vem e … asas para que te quero.
Tão engraçado !

E não menos admirável, é que se defendeu também das paternidades indesejadas –sem, no entanto, ter deixado de “honrar” muitas pardalinhas ao longo da sua vida. Estranho, não é ? Talvez seja só fantasia de autor, já que as aves, em geral, são monogâmicas e muito preocupadas com a prole…

Aprendemos também que o passarinho vive mais vida do que se pensava… Será ?
Em todo o caso este Ladino já leva várias estações; defende-se de tudo e todos, e também dos invernos rigorosos do norte, abrigando-se nas chaminés por onde sai o calorzinho revigorante das cozinhas dos aldeões e por ali espera a primavera como se hibernasse.

É muito esperto o Ladino : e que bem que lhe fica o nome !

M.F.

22.4.2018


O seguro morreu de velho! Serve este adágio popular para definir a personagem Ladino de Miguel Torga. Ou ainda: Fino que nem um pardal. E justificava-se bem, se queria ter vida longa: eram muitos os costelos e fisgas, numa terra em que os pardais fazem parte da ementa de tantos. Quem é que por ali não gostava dum pardal frito ou grelhado?
Neste sentido, é uma mensagem vinda de um pardal e sobre a qual devemos refletir, porque os caminhos da vida estão cheios de armadilhas.
Bicho astuto que nem uma raposa velha. E disso tirava proveitos, de que desfrutava numa vida com prazer.
Previdente quanto baste, para ir sobrevivendo às agruras do tempo e da vida, certo que o destino em grande parte era traçado por si.
Finório e manhoso como ele, só mesmo o padre da aldeia nunca regateando prazeres menos virtuosos, levava a vida cantando e rindo e da miséria dos outros fazia o seu nédio.
Porém, o passar dos invernos vai-lhe endurecendo os ossos e esbatendo a lucidez. Há sempre uma fisga ou um costelo à espera para lhe dar o lampo.

Fernando Sousa


“BICHOS DE MIGUEL TORGA”
 «LADINO», o Pardal


Ladino significa Astuto, Manhoso e Sabido, traços que  caracterizam, de facto, o pardal e têm a ver com a maneira como ele está na vida: É ele e só ele.

Enquanto pequeno e antes de ser – “matulão homem feito” - , era a sua mãe que lhe dava alimento, que o sustentava.

Em adulto, a sua vivência era feita de cautelas, andando sempre a ver a melhor forma de safar-se, sem ter qualquer preocupação com os outros ou com o que fazia, pois encontrava sempre alguém que ficava com as culpas.

Infelizmente, existe muita gente que actua daquela maneira com os seus semelhantes: os egoístas, os hipócritas, os cínicos e os oportunistas.

Debaixo de uma aparência séria, existe na sociedade muita gente como o Ladino.
Essas pessoas só pensam exclusivamente nelas e no seu umbigo. Passam por cima de tudo e de todos para obterem o que pretendem e não têm qualquer tipo de remorsos:  - (“1º. Eu, 2º. Eu, 3º. Eu”).

Penso que Miguel Torga quer sugerir-nos que a sociedade em que vivemos, imfelizmente, é falsa, hipócrita e corrupta.

O pardal Ladino, como se de uma pessoa se tratasse, representa muita gente que, sem qualquer tipo de escrúpulos, se passeia ao redor de nós, sem que as possamos nunca conhecer.

Lá diz o ditado: - As aparências iludem
Isto foi ontem, como é hoje e… será amanhã?…

P. S.  Acho que acordei um pouco cansada!… Amanhã, se estiver sol, talvez me deixe encantar pela esperteza, alegria e híper- actividade criativa do Ladino!...


Azeitão, 22-05-2018
Carmo Bairrada

Para uma análise do conto "Cegarrega", in Bichos, Miguel Torga

“CEGARREGA”
“CEGARREGA” é mais um conto de Miguel Torga carregado de Poesia e entoando um hino à Vida, à Alegria de Viver, apesar de todas as dificuldades e problemas com que todos nos deparamos pelo caminho.
Aliás, as próprias dificuldades e obstáculos que sempre surgem na tarefa de Viver, contribuem para aumentar essa Alegria, pois o esforço dispendido e o sofrimento que o acompanha constituem degraus numa escalada de vitórias que amplificam a alma e a tornam cada vez mais capaz de apreciar todos os cambiantes da Alegria plena, sempre inatingível e cada vez mais profunda.
A cigarra, como todo o ser vivente, desde o seu nascimento, atravessa fases obscuras em que se sente perdida, confusa, não sabe quem é nem o que pode vir a ser.
Não tem consciência do cosmos, não conhece a lei inexorável da Natureza, parece-lhe que não há lugar para ela no universo imenso.
Resta esperar com coragem, não desanimar nunca, apoiada no Sonho e no Amor envolvente e universal.
Tendo atravessado as primeiras fases das metamorfoses, sente que a sua ânsia de subir vai aumentando gradualmente, na proporção directa dos seus esforços na caminhada.
A compreensão de si própria e a realização pessoal que vai tomando cada vez mais forma, inundam-na de uma Alegria crescente, que se traduz numa vontade imensa de cantar, de glorificar a perfeição, cada vez mais próxima e sublime, apesar de sempre inatingível.
Porque o Sonho não tem fronteiras, o Amor não tem limites.
A sua Alegria esfusiante choca com a incompreensão dos outros que a rodeiam.
Não conhecem as maravilhas das vitórias conseguidas, não compreendem que o sentido da Vida não é apenas trabalhar e sofrer, mas ser Feliz.
Não sabem que a Vida ultrapassa a morte e o sofrimento, e que é urgente cantar e glorificar a Vida em todas as suas etapas.
Só o Poeta a compreende. O Poeta, que acredita na importância de ser feliz e que Viver é uma aprendizagem contínua para alcançar essa mesma Felicidade.

26 de Maio de 2018
Maria Leonor

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Para uma análise do conto "Bambo", in Bichos, Miguel Torga

«Eu vi um sapo»

Além de todas as conotações atribuídas ao animal mencionado no conto de Miguel Torga, «Bambo», acrescento mais uma: não nos poderíamos aproximar dele, porque se urinasse para o nosso rosto, cegaríamos. Estas mensagens passadas às crianças dão origem ao que a criança do conto fez ao animal «Bambo»!

Confundindo-se a sua cor com a paisagem onde cresceu, tornou-se no sapo descrito, de ombros largos, estatura grossa e pouco alto. Já nascera com dois berlindes luzidios no olhar, pernas ágeis com que rapidamente levantava voo ou sobre elas se sentava, como se fossem banco confortável de «dobradiças» bem oleadas.
Um sorriso aberto numa garganta profunda. Quando gatinhava à beira do charco, já sonhava com outros mundos, outras terras. Calma, pacientemente, com a capa aos ombros que o protegia do vento e da chuva, avançava às vezes de estômago farto, outras à míngua… assim chegou a «Vilarinho», à quinta que «tio Arruda» arrendara, já a noite ia alta na aldeia onde tudo dormia, tudo sonhava e o luar incidia no negrume das casas. Da água que corria na fonte, nem se ouvia o murmúrio… O homem lembrava pormenorizadamente o que acontecera, o desânimo da altura, a sua vida triste: não contraira matrimónio, não convivia, sempre a trabalhar por conta de outros. Olhou! Um sapo entabulou conversa com ele. Como desconhecia a vida do futuro amigo e mestre!... Saudava o outro solitário, que lhe aparecera. «Bambo» olhava-o com reserva, para que tio Arruda percebesse que não dava confiança a qualquer um.
Tempos após, cruzaram-se novamente e já correu melhor. Não havia vestígios de desconfiança, muito diferente. Já provava que o encontro era agradável e que o seu amigo falava pelos cotovelos:
- Bons olhos o vejam! Por onde andou? ...
Não percebera que «Mestre Zen», durante cinco meses, ia para um retiro de silêncio.
Afinal sabemos tão pouco uns dos outros, concluíram. Como por vezes os primeiros sinais não são verdadeiros! Inacreditável, revestido de luar e serenidade, compenetrado, olhando a estrada de Santiago no céu! «Um poeta», um peregrino. Setenta anos tinha o homem e considerava-se um ceguinho, tal como os outros habitantes da aldeia, que não fitavam o universo nem a doçura da vida, indiferentes ao brilho do sol e sem inventariar estrelas.
A vida para «Tio Arruda» começara a ter novo sentido, pressentia a beleza para lá das horas silenciosas.
Quando partilhou a sua experiência com os outros habitantes, riram-se de si. Como era possível um sapo ensinar alguém! Na alma de tio Arruda, o milagre acontecera. A seiva da vida palpitava em mistério e amor, envolta na serenidade aprendida. Curioso, constatava que não só a fome importava, mas também a consciência da aprendizagem. O seu olhar ganhara outra dimensão olhando as translúcidas gotas de orvalho, contando cada pétala que se desprendia das flores, esperando que voasse sobre si a mais colorida pena do rouxinol que cantava…
 Agora era fundamental não cortar bicos e asas nem a humanos, nem a animais. Um dia, tio Arruda adormeceu…Quem sabe se não a pensar na antiga canção infantil:
«Eu vi um sapo, um lindo sapo»

Um ditado zen: “O Mestre Zen entrega-se ao que o momento traz."

Adalberta Marques