quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Textos inéditos, por Elita Guerreiro



 A MAGIA DA CHUVA

Pingos de chuva, alegria,

Vêm bater na vidraça,

Quebram a monotonia

Da rua onde ninguém passa!

 

Noite escura sem estrelas

Na minha rua deserta,

Bate a chuva nas janelas,

Deixo as portadas abertas!

 

Têm uma certa beleza

As noites de escuridão,

Quando a alma está presa

Entre a mágoa e a solidão!

 

Que seja bem vinda a chuva

Que vem trazer a magia

À rua triste e turva,

Escura mesmo de dia!

 

Elita Guerreiro /24/10/2022


BOM DIA, MÃE NATUREZA

 

Bom dia, manhã de sol

Que ainda há pouco nasceu,

Mas com seu estranho fulgor

Dá brilho à terra e ao céu!

 

Bom dia, rosa orvalhada

Por entre a madressilva,

Tão branca e delicada

Alegre, cheia de vida!

 

Bom dia, passaredo

Que esvoaça do telhado,

Para o verde arvoredo

Que parece envernizado!

 

Bom dia, com alegria,

Manhã mágica de beleza,

Bom dia, bom dia,

Bom dia, Mãe Natureza!


Elita Guerreiro 14/11/2022


SONHO DE CRIANÇA

 

Maria sai a correr

Diz que vai buscar a lua!

Quem a pode convencer

Que a lua vem se quiser

Iluminar a escura rua?

Maria é uma criança,

Não perde a esperança

De falar com o luar,

De o fazer regressar

À sua pequena janela!

Maria, és uma estrela

Sonhadora delicada,

A tua carinha bela

Teria que ser inventada,

Se Deus e aquela Fada

Não o tivessem já feito!

A lua vive alheada

Do teu sonho tão perfeito!

 

Elita Guerreiro/26/11/2022


SOBROU A MÁGOA E A DOR

 

Como eram felizes os dias

Em que as nossas alegrias

Tinham o mesmo destino,

Seguiam o mesmo caminho!

A busca do novo abraço,

Nosso preferido espaço,

Sem muros e sem barreiras…

Pareciam verdadeiras

As juras que trocávamos,

Quando as mãos enlaçávamos!

Era apenas nosso, o mundo

Simples, mas tão profundo!

Um dia, tudo acabou

E do pouco que nos restou

Do nosso grande amor,

Apenas temos a dor!

Profunda, enraizada,

Para não esquecermos nada!

Como é estranho o Amor!

Nasce como um lindo sol

E morre, perdendo o calor!

 

Elita Guerreiro , 02/11/2022


MINHA MUSA

Minha Musa inspiradora

Nos momentos de poesia,

Dependo de ti, senhora

Do teu saber e magia!

Vem aquietar a pena     

Com a qual escrevo meus ais,

Senhora calma e serena

Não me abandones jamais!

 

Só com os meus pensamentos

No silêncio, na escuridão,

Senhora, ouve os meus lamentos

As dores do meu coração!

Vem como estrela cadente

Pousar nesta folha em branco,

Que reclama exigente

Que lhe confie o meu pranto!

 

Perco-me na imensidão

Dos meus próprios pensamentos,

Só escrevo solidão

Só arrasto os meus tormentos!

Não quero escrever assim

Vem ajudar-me, Senhora,

Se a poesia não tem fim

Vem, Musa Inspiradora!

 

Elita Guerreiro /12/10/2022


PERFUME DE ROSAS

Rosas brancas desfolhadas

Atapetam o caminho,

Tenho algumas guardadas

Numa caixa com carinho!

Guardam ainda o perfume,

Embora de cor perdida,

Daquele amor como lume

Que nos envolveu a vida!

 

Caminhamos de mãos dadas

Entre roseiras perdidos,

Rosas brancas perfumadas

Inebriando os sentidos!

Não reparávamos na cor

Porém sentimos os espinhos,

Quando acabou nosso amor

E voltámos a estar sozinhos!

 

Que felizes são as rosas

No seu silêncio sem fim!

Perfumadas e formosas

Não sofrem de amor assim!

 Elita Guerreiro/7/8/2022


A INSÓLITA VISITA ( MEMÓRIA)

 

Às seis da manhã, o silêncio é quebrado pela ruidosa saída do rebanho comunitário do aprisco. O som dos chocalhos é o despertador das gentes da aldeia. Hora de pegar no batente, como diz o Tio Jacob!

Situado no centro da aldeia, junto à enorme cerejeira, que um temporal abriu ao meio e à beira da única rua de terra batida, quando os animais saem ou entram, é  como que um quadro em movimento! Um quadro com cheiro e cor! A velhíssima cerejeira, que continua a fazer sombra ao aprisco e a encher-se de enorme e gostosas cerejas, é com o centenário castanheiro, os dinossauros da aldeia! Ou melhor, era, porque o belíssimo exemplar, que era o castanheiro, mesmo em frente da vivenda dos meus amigos, foi derrubado para dar lugar ao mamarracho de dois andares, em cumprimento do sonho de um emigrante, que nele aplicou as poupanças duma vida! Chorou o Tio Jacó, quando o colosso caiu ao chão! Ninguém na aldeia, nem ele, nos seus noventa anos, sabia quando tinham sido plantados, ou por quem. Bem, vou entrar na minha memória propriamente dita. O episódio, que aqui deixo registado, tem todos os condimentos dum momento anedótico. É no entanto, o verdadeiro relato dos factos! Assustadora e ao mesmo tempo engraçada.

Meio-dia. Como sempre, a aldeia está mergulhada no silêncio daquele Agosto escaldante. Não muito longe, no lameiro, os animais, o pastor e o cão, descansavam à sombra. Do negro das casas de xisto, erguiam-se pequenas nuvens de fumo branquinho que se desfazia no ar. Dentro de casa, era a azáfama da hora do almoço. A dona da casa, às voltas com os tachos e panelas, os dois homens cuidand0 de por a mesa. Coube-me a mim a tarefa de ir à horta buscar um ramo de hortelã. Abro a porta e tenho a maior surpresa e o maior susto da minha vida!...

Uns olhos do tamanho do mundo, uma cabeçorra descomunal e uns

cornos assustadores, estavam na minha frente, tapando a saída por completo, ruminando sem cessar! 

- Então, essa hortelã? - perguntaram de dentro da casa.

 Qual hortelã, qual carapuça! Eu tinha perdido a voz e a faculdade de me movimentar, Estava pregada ao chão! A dona da casa deixou o fogão e veio ver o que se passava. Um grito enorme saiu-lhe da garganta! Mas não chegou para me fazer sair do torpor em que me encontrava!... A vaca, que se tinha afastado da manada, resolveu fazer-nos uma visita à hora do almoço! Olhava-nos com aqueles enormes olhos, ruminando mansamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, uma visita daquelas! Os dois homens apareceram ao mesmo tempo que o Pastor e o cão, um belíssimo Serra da Estrela. Sem que fosse preciso qualquer esforço, a visitante virou lentamente a cabeçorra, ruminando sempre. Segui-os sem olhar para trás.

 - Que bela surpresa! - disse o meu marido, tentando acalmar-me. 

Todos riram do insólito acontecimento. Enervada, juntava o riso às lágrimas e ao bater descompassado do coração. 

Foi há alguns anos, naquela aldeia de Trás-os- Montes, silenciosa e calma, mas onde acontecem coisas estranhas!

Juro que ainda hoje tenho pesadelos com aquela cabeçorra de olhos enormes fixos nos meus, aterrorizados.

Elita Guerreiro 16/7/2022


COMO NASCEU O POEMA


Acordei na areia molhada

Mas não me lembro de nada!

Como fui ali parar,

Se fui chamada pelo mar!...

Que força me arrastou?

Fui só? Alguém me levou?

A cruz sobre os penedos

Recorda as dores, os medos

De quem faz do mar a vida

E lá a deixam perdida!

Já o sol vai acordando:

Há gaivotas esvoaçando,

Pescadores sobre a areia...

Esperando a maré cheia

Rezam suas orações!

Empurram as embarcações

E lá entram pelo mar dentro.

A pesca é o seu sustento!

Foi então que percebi

A razão de estar aqui.

E na madrugada serena

Nasce por fim o poema!


Elita Guerreiro 21/8/2022



CIGANOS

 

Trazem o sol no rosto

Cabelos negros ao vento,

São os filhos do sol - posto

Livres como o pensamento.

 

Olhos escuros com as esperanças

De uma vida por viver,

Que buscam nas andanças

De um mundo a percorrer.

 

E lá vão, de feira em feira

Vendendo sonhos, enganos,

À noite junto à fogueira

Dançam com garra, os ciganos.

 

Levantam o acampamento

E partem pelo mundo fora,

São livres tal qual o vento

Que regressa a qualquer hora.

 

Elita Guerreiro, 24/2/2018

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