segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"Ai flores do verde pino" / "Como ouvi Linda cantar por seu amigo José"



__ Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
    Ai Deus, e u é?

__ Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
    Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
    Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi á jurado!
    Ai Deus, e u é?

__ Vós me perguntardes polo voss'amigo,
e eu bem vos digo que é san'vivo.
    Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss'amado,
e eu bem vos digo que é viv'e sano.
    Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san'vivo
e seera vosc'ant'o prazo saído.
    Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv' e sano
e seera vosc'ant'o prazo passado
    Ai Deus, e u é?
D. Dinis
(Mulher/Natureza: cf. Camões: Leonor [Rodrigues Lobo e Gedeão tb.] e Helena, vilancetes; “ondados fios de ouro reluzente, soneto)

Como ouvi Linda cantar por seu amigo José

Se sabeis novas do meu amigo
novas dizei-me que vou morrendo
por meu amigo que me levaram
num carro negro de madrugada.

Dizei-me novas do meu amigo
em sua torre tecendo os dias
dai-me palavras pra lhe mandar
com ruas brisas domingo sol.

Se sabeis novas de meu amigo
novas dizei-me que desespero
por meu amigo que longe espera
tecendo os dias tecendo a esperança.

Mando recados não sei se chegam
leva-me ó vento da noite triste
ou diz-me novas de meu amigo
que tece o tempo na torre negra.

Que tece o tempo que tece a esperança.
Já da ternura fiz uma corda
ó vento prende-a na torre negra
que o meu amigo por ela desça.

Por essa corda feita de lágrimas
que o meu amigo por ela desça
ou mande a esperança que vai tecendo
que eu desespero sem meu amigo.

Manuel Alegre, Praça da C anção


“FLORES DE VERDE PINHO”
              “REFLEXÃO”

É uma suave balada, um cantar de amigo que o vento, qual trovador,
canta na ramaria dos altos pinheiros! Quantas vezes já me perguntei
que dirá?Que terna melodia é aquela que nem incomoda o passaredo
que ali se abriga? Só a Mãe Natureza pode responder! Mas a verdade,
é que nem todos nós sabemos interpretar o que ela nos diz! Eis a
história de alguém que, desabafando com a Natureza, obteve alívio
para as suas mágoas e respostas para as suas dúvidas…


Passeava a donzela
Naquela matinha,
Mas sabia a bela
Não estar sozinha!
Dirigindo-se aos altos pinheiros sempre verdes, mas cuja flor dourada já desabrochara, perguntou:
- “ Ai flores, ai flores de verde pinho,
Se saberdes novas do meu amigo!
Ai Deus e u é?”
Lamentava a donzela não só a ausência do amigo, mas punha em causa as juras que ele lhe
fizera! Perante aquele desespero, a Natureza como Mãe carinhosa e terna tranquilizou-a!
- Vós perguntades polo vosso amigo,
E eu bem vos digo que é san`vivo
Ai Deus e u é?
E, mansamente, foi acalmando aquele coração dizendo-lhe que para além do seu amado estar  vivo e de boa saúde, ainda a iria surpreender, chegando antes do que ela esperava!
- E eu bem vos digo que é viv`e sano
E seera vosc`ant`o prazo passado
Ai Deus, e u é?
Não fala a Natureza a língua humana, mas temos nós o dever de saber interpretar as muitas vozes com as quais nos sussurra apontando caminhos que, uma vez trilhados com sensatez, nos ajudarão a ultrapassar muitos dos obstáculos das nossas vidas!

Elita Guerreiro/20/1/2016

Sem comentários: