domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre a "Partida das Naus para a Índia" (Os Lusíadas, IV, 83-93) por Carmo Bairrada


 REFLEXÕES SOBRE AS ESTROFES 83-93 DO CANTO IV DE OS LUSÍADAS DE LUIS DE CAMÕES
(AQUANDO DA PARTIDA DAS “NAUS PARA A INDIA”)

Nestas estrofes, Vasco da Gama conta ao Rei de Melinde,a partida das naus para a Descoberta do caminho Marítimo para a Índia

D. Manuel I remunerou todos os navegadores e dirigiu-lhes palavras nobres e estimulantes, para
que  eles tivessem mais amor pelos trabalhos, que viessem a executar durante a expedição.



(Camões faz uma comparação erudita e mitológica  entre os navegadores portugueses  com uma
vontade heróica de chegar à Índia e os Mínias com a sua nau Argos, que Jasão mandou construir para ir em busca do «Velo de Ouro».) **

NOTA: -**tinha a ver com as expedições gregas às costas do Mar Negro (Euxínio), que eram muito difíceis de contornar, em busca do ouro que a Grécia não possuia.
(Estrofe  83)
Foram de Emmanuel remunerados                         V.1     
com palavras altas animados                                   V.3
para quantos trabalhos sucedessem                       V.4
Assim foram os Mínias ajuntados,                           V.5     
para que o Véu dourado combatessem,                 V.6
Tentar o mar Euxinio, aventureira.                          V.8

Estavam as Naus breves a zarpar e, sem medo e com ânimo juvenil, os marinheiros e os soldados estavam prontos a seguir Vasco da gama  naquela aventura.
(Estrofe  84)
E já no porto da ínclita Ulisseia                              V.1
(Onde o licor mistura e branca areia                       V.3
C ’o salgado Neptuno o doce Tejo)                          V.4
As naus prestes estão; e não refreia                       V.5                
Porque a gente marítima e a de Marte                  V.7
Estão para seguir-me a toda a parte.                      V.8


Nesta estrofe,  Camões designa Lisboa, como a afamada Ulisseia e fala  do nobre alvoroço que aí se vive e que corresponde ao desejo de partir.  Localiza-a espacialmente no sítio em que o Tejo une as suas  águas  (licor... e branca areia) às do oceano (referência mitológica a Neptuno.

Pela praia os soldados avançavam com os seus fatos de várias cores e de várias maneiras, aparentando toda a sua força e energia para descobrirem outros mundos. As robustas Naus baloiçavam ao sabor de ventos calmos, e erguiam-se bem alto os estandartes pressagiando  um final glorioso e imortal (ser no Olimpo estrelas  como a de Argos).     
                                                                                                                                  
NOTA: (Segundo a Mitologia, a nau Argo foi colocada por Minerva entre as constelações do Universo).
(Estrofe  85)
"Pelas praias vestidos os soldados                          V.1
De várias cores vêm e várias artes,                         V.2
Para buscar no mundo novas partes                       V.4
Nas fortes naus os ventos sossegados                    V.5
Ondeam os aéreos estandartes;                               V.6
De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.          V.8

Vasco da Gama continua a descrição da partida fazendo realçar a parte física e psíquica dos
navegadores.
Apesar de eles terem comparecido com os seus melhores trajes, conforme a viagem pedia e de terem o moral elevado, também tinha que lhes preparar a alma para os perigos, que a partir dali começariam . Ele próprio com os olhos já cansados, pediu a Deus que os guiasse e os favorecesse desde início,  pois todos os marinheiros andam sempre com a morte pela frente.
(Estrofe 86)
“Depois de aparelhados desta sorte                      V.1
Aparelhamos a alma para a morte,                       V.3
Para o sumo Poder que a etérea corte                   V.5
Sustenta só com a vista veneranda,                       V.6
Imploramos favor que nos guiasse,                        V 7


Sairam do templo que está junto ao mar, na Praia de Belém, (com o mesmo nome  da terra em que Deus foi encarnar (nascer), e olhando bem para o Rei de Melinde, conta ao Rei como foi afastado daquelas praias levando dentro de si dúvidas e receios, dificilmente retendo as lágrimas.

NOTA: Aqui Camões faz uma “perífrase”(circunlocução ou rodeio), para fazer um paralelismo entre Belém da Judeia onde Cristo nasceu e Belém de Lisboa de onde eles iriam partir.

(Estrofe 87)
“Partimos assim do santo templo                            V.1
Que o nome tem da terra, para exemplo,               V.3
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.              V.4
Cheio dentro de dúvidas e receio,                            V.7
Que apenas nos meus olhos ponho o freio               V.8

Naquele dia, a gente da cidade incluindo amigos e familiares dos navegadores e os estranhos que queriam assistir à partida dos mareantes, acercaram-se da praia, para fazerem as despedidas. Os marinheiros vinham já saudosos e tristes das suas famílias ali presentes. Juntamente com os religiosos que os iam acompanhar na viagem, seguiam em procissão solene para as naus, enquanto rezavam a Deus.
Estrofe (88)
"A gente da cidade aquele dia,                                V.1
(Uns por amigos, outros por parentes,                    V.2
Outros por ver somente)concorria,                         V.3
Saudosos na vista e descontentes.                           V.4
Em procissão solene a Deus orando,                        V.7
Para os batéis viemos caminhando.”                       V.8

(Estrofe 89)
“Por perdidos as gentes nos julgavam;                    V.2
As  mulheres c’um choro piedoso,                           V.3
Os homens com suspiros que  arrancavam;             V.4
Mães, esposas e irmãs, que o temeroso                  V.5
De já nos não tornar a ver tão cedo.                       V.8

O Capitão continua a sua narrativa, descrevendo com precisão alguns dos epísódios que não lhe
passaram, de todo, desapercebidos:

Uma velha mulher fala para o seu filho perguntando-lhe porque sendo ele o seu amparo
na velhice, agora a abandona para ir morrer no mar...
Outra, descabelada de desespero, falando com o seu marido, cuja ausência não sabe suportar,
pergunta como pode ir aventurar-se no mar, deixando-a, e como é possível trocar o amor que os une para seguir um caminho para ele desconhecido...
O choro das mulheres era seguido pelo de velhos e meninos, todos compartilhando aquela dor. A
comoção era tanta, que até os próprios montes respondiam a tal clamor. As lágrimas eram tantas
quantos os grãos de areia da praia.

NOTA: Camões nesta frase faz uma hipérbole muito sugestiva da dor em comum.

Ao ouvir aqueles clamores, o Gama determinou que os marinheiros e soldados se apressassem a partir sem as despedidas (habituais), a fim de evitarem arrependimentos de última hora.
(Estrofe 90)
“Qual vai dizendo: - “Ó filho, a quem eu tinha        V.1
Só para refrigério, e doce amparo                           V.2
Por que me deixas mísera e mesquinha?                V.5
Onde sejas de peixes mantimento!” -                      V.8

(Estrofe 91)
“Qual em cabelo: -“Ó doce e amado esposo,          V.1
Por que is aventurar ao mar iroso                           V.3
Essa vida que é minha, e não vossa?                       V.4
Como por um caminho duvidoso                              V.5
Vos esquece a afeição tão doce nossa?                   V.6

(Estrofe 92)
“Nestas e outras palavras que diziam                     V.1
Os velhos e os meninos as seguiam,                        V.3
Os montes de mais perto respondiam,                    V.5
A branca areia as lágrimas banhavam,                   V.7
Que em multidão com elas se igualavam.              V.8

(Estrofe 93)
Do propósito firme começado,                               V.4
Determinei de assim nos embarcarmos                  V.5
Sem o despedimento costumado,                            V.6

             Carmo Bairrada                26/11/2011

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