domingo, 27 de Novembro de 2011

SOBRE O "Velho do Restelo" 1 (Os Lusíadas, IV, 94-104) Análise de Ana Machete

(in http://www.dightonrock.com/camoes_o_maior_emigrante_de_todo.htm notar o "Velho do Restelo" no canto inferior esquerdo, identificado com uma bolinha branca))

“ Os Lusíadas”,Canto IV. Abordagem do episódio oVelho do Restelo”

Na praia do Restelo, no momento em que a os navios de Vasco da Gama estão prestes a largar de Lisboa para a grande viagem, um velho profere um discurso poderoso contra os empreendimentos marítimos de Portugal, que ele considera uma ofensa aos princípios cristãos, uma vez que a busca de fama e glória em terras distantes se pode vir a revelar desastrosa.
Caraterização do Velho do Restelo
A figura do Velho do Restelo assume uma autoridade e uma respeitabilidade que lhe permitem falar e ser ouvido. As suas palavras têm o peso da idade e da experiência que daí resulta e a autoridade provem  de uma vivida e longa experiência.
  • a idade, (velho)
  • o aspeto respeitável, (aspeito venerando)
  • a atitude de descontentamento, (meneando / Três vezes a cabeça, descontente),
  • a voz solene e audível, (a voz pesada),
  • a sabedoria resultante da experiência de vida, (C'um saber só de experiências feito/... experto peito).

Simbologia do episódio do "Velho do Restelo"

O "Velho do Restelo" é uma criação de Camões, não é uma personagem histórica, com um profundo significado simbólico, que no seu discurso defende um ideal/princípio. Poderá por isso ser considerado uma personagem alegórica.

Por um lado, representa a corrente de opinião que via com desagrado o envolvimento de Portugal nos Descobrimentos, considerando que a tentativa de criação de um império colonial no Oriente era demasiado custosa e de resultados duvidosos. Preferiam que a expansão do país se fizesse pela ampliação das conquistas militares no Norte de África. Essa ideia era, sobretudo, defendida pela nobreza, que assim teria possibilidades de mostrar o seu valor no combate com os mouros e, ao mesmo tempo, encontrava justificação para as benesses que a Coroa lhe concedia. A burguesia, por seu lado, inclinava-se mais para a expansão marítima, vendo aí maiores oportunidades de comércio frutuoso.

Por outro lado, a figura do Velho simboliza aqueles que, em nome do bom senso, recusam as aventuras incertas, defendendo que é preferível a tranquilidade duma vida mediana à promessa de riquezas que, geralmente, se traduzem em desgraças. Representa a voz da razão num momento de euforia e deslumbramento, a voz da experiência perante a irreverência.

Encontramos aqui um eco de uma ideia cara aos humanistas: a nostalgia da idade de ouro, tempo de paz e tranquilidade, de que o homem se viu afastado e a que pode voltar, reduzindo as suas ambições a uma sábia mediania "aurea mediocritas”. Neste sentido o episódio pode ser entendido não só como um reflexo social mas também como uma manifestação do espírito humanista, favorável à paz e tranquilidade, contrariando o espírito guerreiro da Idade Média.

A ideia mestra deste discurso
  • o velho do Restelo manifesta-se contra as aventuras marítimas, predizendo resultados desastrosos e a decadência da pátria.
No discurso que profere é possível identificar três partes.

Na primeira (estrofes 95-97), condena o envolvimento do país na aventura dos descobrimentos, à qual se refere de forma claramente negativa (glória de mandar, vã cobiça, vaidade, fraudulento gosto, dina de infames vitupérios) e a ambição desmedida do ser humano, neste caso materializada na expansão ultramarina. Denuncia o carácter ilusório das justificações de carácter heróico que foram apresentadas para esse empreendimento (Fama, honra, chamam-te ilustre, chamam-te subida, Chamam-te Fama e Glória soberana), das (promessas de reinos, e de minas d’ ouro, famas, histórias, triunfos, palmas vitórias) sendo certo que tudo isso são apenas “nomes com quem se o povo néscio engana".

Se na primeira parte manifestou a sua oposição às aventuras insensatas que lançam o ser humano na inquietação e no sofrimento, agora propõe uma alternativa menos arriscada e mais sensata face à empresa dos Descobrimentos, sugerindo que a ambição seja canalizada para um objectivo mais próximo - o Norte de África. (Não tens junto contigo o Ismaelita, ..?)

A segunda parte (estrofes 98 a 101). Dirige-se aos seres humanos, descendentes de Adão, (Ó tu, geração daquele insano/cujo pecado e desobediência/.../te pôs neste desterro ...).

A estância 100 apresenta a sua proposta, cobrindo todas as variantes dessa ambição: religiosa (Se tu pola [Lei] de Cristo só pelejas?), material (Se terras e riquezas mais desejas?), glória militar (Se queres por vitórias ser louvado?).

Na estância 101 adverte para os perigos do despovoamento, do enfraquecimento e do afastamento, (deixas criar à porta o inimigo...buscas o incerto e incógnito perigo) em nome da fama, da exaltação e da lisonja.

Vem depois a terceira parte (estrofes 102-104). O poeta recorda figuras míticas do passado que, de certo modo, representam casos paradigmáticos de ambição com consequências dramáticas. Começa por condenar o inventor da navegação à vela - "o primeiro que, no mundo, / Nas ondas vela pôs em seco lenho!". Faz depois referência a Prometeu, que, segundo a mitologia grega, teria criado a espécie humana, dando assim origem a todas as desgraças consequentes - "Fogo que o mundo em armas acendeu, / Em mortes, em desonras (grande engano!)". Logo a seguir, narra os casos de Faetonte e Ícaro, que, pela sua ambição, foram punidos.

Previsão das consequências dos descobrimentos para Portugal

  • Mortes (que mortes, que perigos, que tormentas, /que crueldades neles experimentas!)
  • Perigos (que perigos que mortes lhe destinas)
  • tormentas
  • crueldade
  • desamparo das famílias (fonte de desamparos e adultérios)
  • adultérios
  • desastres (a que novos desastres determinas/de levar estes reinos e esta gente?)
  • empobrecimento material (sagaz consumidora conhecida/ de fazendas, de reinos e de impérios)
  • fortalecimento do inimigo tradicional    (deixas criar às portas o inimigo)
  • despovoamento                                  (por quem se despovoe o reino antigo)
  • enfraquecimento do reino                     (se enfraqueça e se vá deitando ao longe)

 USAz, 27 de Outubro 2011
Ana Machete

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