segunda-feira, 28 de março de 2011

Em Demanda da "Ilha Desconhecida".4 (do conto de José Saramago)

(De como Nélida Silva embarcou com Saramago e navegou à bolina da sua pontuação...)

A realidade de um sonho

          Eis aqui a história real ou imaginária da vida de dois seres unidos pelo destino, ambos com ambições e quereres antagónicos, mas semelhantes, para descobrirem o que querem da vida e lutar para obter o fim almejado.
Um homem e uma mulher que o acaso fez encontrar-se em situações contraditórias, ele queria pedir ao rei um barco, ela a personagem que conseguiria fazer chegar o seu pedido ao rei (a mulher da limpeza) e que abria a porta das petições.
Este homem tinha um sonho que queria realizar, descobrir uma ilha desconhecida, onde pudesse realmente descobrir-se a si mesmo e o que queria da vida, mas para tal necessitaria de um barco e foi isso mesmo que respondeu ao rei quando este resolveu abrir a porta das petições, curioso por conhecer e até despachar aquele atrevido que não lhe abandonava a porta.
Ouvindo o pedido do homem e os seus argumentos e em resposta às suas perguntas, o rei inicialmente disse que não lhe dava o barco.
O homem não se intimidando disse:
         -Davas sim, quem és tu, para que mo negues?
         A multidão, que entretanto já se tinha aglomerado à porta, escutando o diálogo entre os dois, cansados de esperar, e mais para se verem livres do homem que por solidariedade com o mesmo, começaram a gritar para o rei lhe dar o barco.
O rei preocupado com semelhante atitude e manifestação popular e com o que já haveria perdido na porta dos obséquios, levantou a mão a impor silêncio e disse:
-Vou dar-te um barco, mas tripulação terás tu que arranjar.
O homem agradeceu em voz baixa, dizendo que ele lá se arranjaria com a tripulação e outros assuntos.
O rei deu-lhe um cartão, para o homem ir à doca, à procura do capitão do porto dizes que vais da minha parte e que mando que te dê um barco, que navegue e que seja seguro.
Quando o homem levantou a cabeça para agradecer, já a porta estava fechada e apesar da aldraba de bronze tornar a chamar, a mulher da limpeza, já não se encontrava lá para a abrir.
Esta, que tudo tinha atentamente observado, cheia de curiosidade e esperteza, descobrindo que estava ali a forma de poder mudar de vida, já tinha saído, de balde e vassoura na mão pela porta das decisões a caminho do porto pois, pensava ela, limpar barcos é que é o meu ofício, pois no mar a água nunca lhe faltaria.
Enquanto o homem caminhava para o porto, apressadamente, não sonhava sequer que ainda não tendo barco, nem tripulação, já levava atrás de si (à frente, pois ela tinha saído apressadamente) a futura encarregada das limpezas e outros anseios, pois é assim que muitas vezes o destino determina as vicissitudes da vida.
Ao chegar ao porto para falar com o capitão, a sua sorte já estava jogada. A mulher que tinha chegado primeiro fez uma avaliação às embarcações e a sua escolha recaiu sobre uma caravela.
O homem apresentou-se ao capitão com o cartão do rei. Este fez-lhe as respectivas perguntas a fim de saber qual o tipo de barco, qual a sua função (destino) se era o marinheiro, etc… e chegou à conclusão que o barco ideal seria a caravela, aquela que a mulher já considerava como sua (tinha sido a sua escolha) quando exclamara:
- É este o meu barco!
Confuso, o homem interrogou-a sobre a sua identidade, ao qual ela se apresentou como a mulher da porta das petições e como já estava farta de tanto abrir e fechar portas, dali em diante, só se interessaria pela limpeza de barco.
Após terem decidido que ambos estavam interessados em embarcar para o desconhecido, para tentar encontrar a ilha desconhecida e recomeçar nela uma nova vida, ambos decidiram as tarefas, ela ficaria encarregue de preparar o barco enquanto ele iria recrutar a tripulação.
O dia passou, o sol já lá ia alto, a mulher que já tinha efectuado todas as tarefas inerentes ao bom funcionamento do barco, limpezas, arranjos, etc.… começou a ficar preocupada com a ausência e demora do homem, bem como com a falta de alimentos a bordo.
Ao pôr-do-sol, estava ela já num estado de ansiedade, quando ao longe viu aparecer o homem sozinho, apenas com um embrulho debaixo do braço.
Sozinho e cabisbaixo o homem chegou à caravela entregando o embrulho à mulher dizendo que seria o seu jantar. Quando esta perguntou pela tripulação, ele manifestou grande desilusão e descontentamento, pois não tinha conseguido ninguém que quisesse embarcar naquela aventura, baseando-se em vários subterfúgios, que não havia nenhuma ilha por descobrir, não estavam interessados em tirar-se do sossego dos lares, e da boa vida dos barcos de carreira, para se meterem em aventuras temerosas...
Preocupada, mas sem o querer magoar e tentando encorajá-lo, ela sugeriu ficarem a viver no barco, e ela iria oferecer os seus préstimos para lavar e limpar os barcos que chegassem à doca.
Arrojada, ela perguntou-lhe se não tinha nenhuma profissão, ao que ele respondeu que já tinha tido, ainda tinha, mas o que realmente ambicionava era encontrar a ilha, e encontrar-se a si próprio e lá sim, quando lá estivesse, saberia realmente quem era, o que queria ser, pois era necessário sair da ilha para a ver, que não nos vemos se não sairmos de nós.
O homem propôs irem jantar, mas a mulher, já com algum sentido de autoridade e controlo da situação, quase exigiu que deveriam ir primeiro conhecer o seu barco, verificar se se encontrava em condições de zarpar mesmo sem tripulação, mas os dois sozinhos, quando fosse possível e houvesse condições atmosféricas, boas marés, pois haveriam de resolver, os dois, e concretizar o sonho que já era de ambos.
Terminado o jantar, ele enleado nas artimanhas da sedução e habilidade da mulher, viu o seu sentimento pela mesma evoluir, passando de patrão e empregada a um sentimento mais profundo, fazendo-o observá-la mais atentamente sob a luz do luar, achando-a mais bonita, ela assim como a caravela, talvez sedutora na maneira como lhe conseguia ir mudando alguns conceitos e aceitando sugestões e até ordens da mesma.
Já a noite ia alta quando resolveram dormir, muito embora não fosse esse o seu desejo, pois encontravam-se enlevados contemplando a lua e o mar, e quiçá, um ao outro num início de romance.
Cada um dirigiu-se para os beliches nos extremo opostos da caravela, desejando ela que dormisse bem e ele que tivesse sonhos felizes, pensando que quando estivesse sozinho vir-lhe-iam à ideia outras frases mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem que está sozinho com uma mulher.
Deitado pôs-se a pensar na companheira, se já dormia, se teria dificuldade em adormecer e depois no seu sono já profundo imaginou andar à sua procura e não a encontrar, que estariam perdidos os dois num barco enorme.
O sonho continua, nele, sente a falta da mulher porque o sonho muda as formas de comportamento, separa e reúne sentimentos e afectos e mesmo a mulher dormindo a poucos passos, ele não consegue alcançá-la, quando é tão fácil chegar até ela.
Depois continua a sonhar com a caravela em mar alto, com as três velas enfunadas, enquanto ela manejava o leme, a caravela cheia de animais, marinheiros, alimentos, árvores, uma ilha ambulante.
Ao vislumbrarem uma ilha que já vinha no mapa, a tripulação insubordinou-se e obrigou o homem com ameaças de morte a encostar para abandonarem o barco, levando tudo o que puderam, apenas deixando as árvores, o trigo e as flores que se desenvolveriam na terra deixada na caravela pelos sacos que se tinham rompido. Como o sonho continua, as árvores e as sementes desenvolveram e quando ele deixa o leme para cortar as primeiras espigas, viu uma sombra ao lado da sua.
 Acordou abraçado à mulher, ele e ela confundidos no mesmo beliche.
Amanheceu, a realidade era apenas os dois que iriam iniciar a sua viagem, na procura da sua ilha, da sua verdade, da sua felicidade.

Tal como este homem que não encontrou respostas na sua Terra, podemos interpretar a vida do autor que, ao sentir-se abandonado, afastado e não valorizado, quis realizar o seu sonho numa ilha, viver o seu sonho, o seu grande amor, com a mulher escolhida que lhe serviu de leme, companheira, amiga, paixão e acompanho, ou a quem levou para viverem a sua felicidade, na ilha por eles escolhida, não desconhecida, mas onde conseguisse conhecer-se, realizar-se e ser feliz e ser reconhecido mundialmente, muito especialmente, quando ganhou o Prémio Nobel.

1 comentário:

Pedro disse...

Bela Síntese, Nélida. Parabéns